domingo, 6 de novembro de 2011

CONSELHO TUTELAR REGISTROU 80 DENÚNCIAS DE MAUS-TRATOS




O Conselho Tutelar de Catanduva registrou 80 denúncias de crianças sendo agredidas fisicamente por seus pais e responsáveis, no ano de 2010. A triste realidade também é apresentada em todo o país; diariamente, crianças sofrem torturas psicológicas e físicas pelas próprias pessoas que deveriam protegê-las.

Na terça-feira, dia 25, médicos e especialistas em direitos da criança e do adolescente, em reunião na Comissão Especial da Câmara dos Deputados, em Brasília, defenderam a aprovação da chamada "Lei da Palmada", que proíbe pais de punirem os filhos com castigos físicos.
 

A comissão também decidiu que será solicitada uma audiência com o ministro da secretaria de assuntos estratégicos, Moreira Franco.
 

O encontro foi a quarta audiência pública da comissão sobre o tema, que ainda receberá membros do governo e representantes de crianças e adolescentes para que o texto do projeto de lei (7.672/2010) seja aprovado pela Casa. Em seguida, o projeto segue para deliberação no Senado.
 

O conselheiro catanduvense Wilson Aparecido Anastácio avalia que para a lei ser aprovada, a mesma deverá passar por grandes mudanças. “Acredito que não temos uma cultura ideal para fazer com esta Lei seja respeitada, penso que muitos filhos usarão a mesma, como proveito para desrespeitar os pais, alegando que estes podem ser presos, se acaso tentarem corrigi-los com “palmadas” e de certa forma irão eliminar a autoridade de seus responsáveis”, disse Anastácio.

O projeto de lei em trâmite na Câmara visa regulamentar o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) e dar sustentação à legislação já existente. O estatuto, que é o que vigora atualmente, menciona "maus tratos", mas não especifica quais castigos não podem ser aplicados pelos pais ou responsáveis. Segundo a proposta em discussão, "castigo corporal" e "tratamento cruel e degradante" serão incluídos no texto da lei como violações aos direitos na infância e na adolescência.
 


Para a coordenadora da defensoria pública dos direitos da criança e do adolescente, Eufrásia Maria Souza das Virgens, haverá quem ache a lei desnecessária, argumentando que os direitos já estão no estatuto, e que essa lei é sem objetivo e que haverá interferência do Estado na relação entre pais e filhos, porém, esclareceu que o objetivo da lei é informar e ter mecanismos de proteção e acompanhamento.

ÍNDICES TRADUZEM CENÁRIO DA VIOLÊNCIA INFANTIL NO BRASIL





As estatísticas mostram-se cada vez mais preocupantes. De acordo com a Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e Negligência na Infância (Sipani), são 18 mil crianças agredidas por dia no Brasil. Pelo menos 750 são vitimizadas por hora e 12 são agredidas por minuto. 

De acordo com a psicóloga e supervisora da SOS - Casas de Acolhida, Sônia Bagatini, que trabalha com crianças vítimas de violência, é preciso tomar uma atitude frente a essa situação. “Temos que refletir sobre isso. Não dá para esperar. A família, o governo e a sociedade devem participar juntos para cortar este circulo vicioso da violência contra a criança”, afirma. 

A SOS - Casas de Acolhida é uma entidade sem fins lucrativos, que, desde 1993, acolhe crianças de 0 a 6 anos que foram afastadas do seu meio familiar. Sônia explica que durante o período que a criança permanece na casa é feito um trabalho de estimulação, além dos cuidados médicos que ela recebe. “Investir na recuperação das crianças vítimas de violência perpassa pela amenização de seus traumas, recuperação de sua auto-estima e auto imagem e desenvolvimento de seus potenciais”, diz. 


quarta-feira, 2 de novembro de 2011

BROKEN THE FILM - THE MOVEMENT – BRASIL




BROKEN conta a história do nascimento de um movimento internacional que conclama o mundo, para a união de todos: organizações governamentais e privadas, empresas, governos, celebridades e cidadãos de várias classes sociais. A hora de unir esforços plenos contra ao abuso sexual infanto-juvenil, Pedofilia é somente um deles.

BROKEN é um filme com muita ação e suspense, baseado em fatos reais, refletindo o enfrentamento contra esse grave problema social. Mostra os bastidores dessa luta, as frustrações e pequenos e grandes triunfos de profissionais e pessoas comuns dedicados à causa.

BROKEN desperta na platéia mundial uma vontade real de reagir. Todos nós podemos e devemos, juntos, agir de forma efetiva e objetivamente positiva para enfrentar esse grave problema social no mundo.

BROKEN vai revolucionar a forma de como este delicado tema ainda é retratado.
Esse mesmo grupo, trabalhando juntos e ou separadamente, e inspirados pelo discurso de uma vitima, Silvia, uma jovem de 12 anos, nos dá a todos a certeza de que um BASTA se faz mais do que necessário: É IMPERATIVO.

Nossa pequena Silvia agora se direciona às autoridades do mundo e pergunta:

- “Quantas vítimas mais, serão necessárias, para que vocês... vocês governantes do nosso planeta, passem a trabalhar juntos e unidos? Para que se coloque um ponto final nessa triste história em todo o mundo?”
O discurso de Silvia se espalha pelo mundo via internet feito um rastilho de pólvora e inspira um movimento global contra ao abuso sexual infanto-juvenil.

SARGENTO ALERTA SOBRE PEDOFILIA




Referência no combate ao crime, policial falou a professores, alunos e profissionais na Unipar

A convite da promotoria pública, a sargento Tânia Mara Abrão Guerreiro abordou o trauma da pedofilia em palestra no anfiteatro da Universidade Paranaense (Unipar) em Cianorte, para estudantes, professores, diretores e profissionais do Direito na noite desta quinta-feira (27). Tânia é referência no combate ao crime, no Estado.

“Trabalho há 28 anos contra este tipo de agressão. Neste tempo, tirei várias conclusões e uma delas é que o pedófilo precisa ficar encarcerado. Não existe um caso conhecido de uma pessoa que cometeu o crime, foi preso, solto e depois não se tornou reincidente. Todos acabam voltando a praticar o crime”, comentou

A policial destacou a importância da denúncia. Segundo ela, este é o crime menos denunciado no mundo. Ela citou trabalhos realizados na Interpol e ressaltou que o problema pode ser encoberto pela confiança, até mesmo dentro das residências. “É difícil falar sobre isso, mas estudos apontam que 67% dos pedófilos são padrastos e 20% são os próprios pais”, revelou.

Os outros 13% são irmãos mais velhos, padrinhos e em alguns casos, padres e pastores. “Não podemos achar que todos são suspeitos, mas não podemos baixar a guarda no cuidado. Se receber visita em casa, o ideal é deixá-la no quarto de hóspedes. Os filhos, de preferência, devemos levar para dormir ao lado de nossa cama. Não custa prevenir”, ressaltou.

Na palestra, a sargento Tânia Guerreiro apresentou uma série de vídeos mostrando como agem os pedófilos e comentou casos atendidos ao longo da carreira. Um deles, envolvendo uma menina de nove anos, fez com que iniciasse uma campanha junto à Secretaria de Educação para que fosse proibida a venda de rifas como ‘sinhazinha’ e ‘sinhozinho’, onde as crianças se expõem vendendo votos.

“Tivemos um caso em Curitiba onde a criança foi barbaramente assassinada quando fazia um trabalho como este. Não podemos admitir que um descuido possa acabar desta forma”, relatou.

O anfiteatro da Unipar ficou repleto durante a palestra, que durou cerca de duas horas. Segundo a promotora de Justiça Elaine Cristina de Lima, uma das organizadoras do evento, em Cianorte foram registrados três casos de pedofilia neste ano. “Sabemos que isso é apenas a ponta do iceberg, mas para que os culpados possam responder pelo crime é importante que aconteça a denúncia”, comentou. A palestra integrou a programação do 10º Cejur – Ciclo de Estudos Jurídicos, promovido pela Unipar em Cianorte.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

CRIANÇAS ABANDONADAS À PRÓPRIA SORTE


É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (Artigo 227 da Constituição)


Um cenário de descaso aos direitos previstos na legislação é protagonizado por crianças e adolescentes que vivem nas ruas de Goiânia. Segundo dados do último Censo Nacional sobre Crianças e Adolescentes em Situação de Rua (realizado em junho de 2010, em 75 cidades do País com mais de 300 mil habitantes) a capital de Goiás possui 1.206 crianças e adolescentes nesta condição. Para vê-los no dia a dia não é necessário qualquer esforço. Basta circular nas regiões de feiras, viadutos, semáforos, terminais de ônibus e das duas rodoviárias municipais – nos setores Aeroviário e Norte Ferroviário. 

A expressão “situação de rua” inclui tanto os moradores definitivos quanto aqueles a um passo de se incluírem na marginalidade absoluta. São meninos e meninas que ficam nas vias públicas durante todo o dia, pedindo dinheiro e favores, realizando pequenos bicos, furtos, usando drogas, prostituindo-se, mas ainda sem romper o vínculo familiar, pois vez ou outra ainda dormem em casa, explica a socióloga Luiza Monteiro, responsável por coordenar a pesquisa na capital.


Enquanto o problema se expande visivelmente, sequer a abrangência do desafio é conhecida pela Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas). Sem fornecer um banco de dados atualizado, o órgão computa em 46 o número de crianças e adolescentes pelas ruas de Goiânia, sendo estes atendidos no mês de agosto. Esse número representa uma queda em relação a julho, quando, segundo divulgado, houve 62 abordagens. “Eles migram de uma região para outra e, por isso, não é possível ter um número fixo. Muitos vêm de outras cidades e, depois, vão embora”, disse a titular da pasta, Célia Valadão. Ela não soube informar, no entanto, a quantidade de recursos disponíveis para a secretaria desenvolver o trabalho nas ruas da cidade.

O descrédito na assistência social do setor se demonstra pela falta de políticas públicas que visem à solução do problema. Desde 2010, a prefeitura cortou aproximadamente R$ 10 milhões em investimentos anuais, que eram destinados ao atendimento à população menor de 18 anos em situação de risco e violência, conforme dados da Secretaria Municipal de Planejamento.

Os números de atendimentos da Semas não refletem a dimensão do problema, segundo especialistas entrevistados pelo jornal A Redação. Além de apontar um contingente bem maior de crianças e adolescentes vivendo nas ruas, eles ressaltam que a falta de investimentos atinge a contratação de pessoal necessário para fazer o levantamento, prejudicando assim a metodologia de trabalho. Atualmente, apenas nove pessoas, divididas em três equipes de educadores sociais, são responsáveis por abordar, dia e noite, o grupo alvo em questão, além de adultos, em situação de risco. A secretaria não explicou os critérios usados para definir o número de equipes nem a seleção dos integrantes, responsáveis por atender uma cidade de 1.302 milhão de habitantes (Censo 2010).

A discrepância dos números fornecidos pela Semas é diagnosticada pelo último Censo Nacional sobre Crianças e Adolescentes em Situação de Rua. O levantamento mostra em Goiânia, na época, um total de 163 crianças e adolescentes morando definitivamente nas ruas.

“É importante fazer essa distinção, porque nem todos que estão na rua deixaram suas casas ainda. Entretanto, podem se tornar moradores de rua, de acordo que o tempo longe de suas famílias aumentar e o trabalho ou o ato de pedir, por exemplo, ocupar mais o seu cotidiano. A partir daí, conhecem outras crianças e adolescentes e param de dormir em casa”, ressalta Luiza, que também é coordenadora do Movimento de Meninos e Meninas de Rua em Goiás (MMMR-GO).


De acordo com a socióloga, o estudo foi desenvolvido, no Estado, pelo Instituto Dom Fernando, vinculado à Pontifícia Universidade Católica (PUC) de Goiás. Somente em Goiânia, 34 pesquisadores trabalharam para identificar a dimensão do problema. “Prostituição, trabalho infantil, drogas e conflitos familiares estão entre os principais fatores que fazem crianças e adolescentes saírem de casa”, pontua Luiza Monteiro.

Caos e improviso

Presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), o psicólogo Eduardo Mota também questiona os números apresentados pela Semas. Segundo ele, a secretaria não realiza um trabalho de prevenção suficiente para coibir o problema nem tem metodologia de trabalho adequada. “Goiânia vive um caos na área da assistência social. O município está desleixado nesse campo, que sofre com a retirada tanto de profissionais quanto de recursos”, critica.

O colapso na área faz os profissionais recorrerem ao improviso para tentar suprir a demanda de trabalho. A reportagem do jornal A Redação constatou que, no CMDCA, além de equipamentos eletrônicos estragados, faltam materiais básicos, como papel higiênico e copos descartáveis. “Já fizemos as solicitações para a Semas, mas, até hoje, não houve resposta”, lamenta Eduardo Mota.

A precariedade também se estende aos seis conselhos tutelares de Goiânia. “Cada unidade tem cinco conselheiros, mas apenas um carro para atender à sua região. Houve casos de o trabalho ficar travado por falta de combustível”, afirma o psicólogo. Entretanto, para a secretária titular da pasta, não há necessidade de aumentar a frota. “Os conselhos têm carros para trabalhar e temos muitos outros problemas para resolver. Não podemos prestar atendimento só para crianças e adolescentes”, alega Célia Valadão.

A crise também afetou os trabalhos no Complexo 24 Horas, a única casa de passagem destinada a acolher, provisoriamente, a população de rua menor de 18 anos. Em janeiro deste ano, os profissionais da unidade promoveram uma manifestação em frente à unidade, no Setor Universitário, reivindicando melhorias das condições de trabalho. Eles entregaram um documento, com 32 assinaturas, à Semas e ao Ministério Público de Goiás (MP-GO), pelo qual denunciaram a falta de equipe multiprofissional, espaço e material pedagógico para desenvolver atividades com o público atendido.

Após quase 10 meses da denúncia, os profissionais ainda permanecem insatisfeitos, principalmente porque, conforme afirmaram, o complexo não possui profissionais suficientes para atender à demanda. “Muitos educadores sociais começam a trabalhar e desistem porque não se adaptam à função, por falta de recursos ou de preparo”, pontua uma assistente social que trabalha na unidade. “Quem vem aqui encontra tudo quieto mas, na verdade, é apenas um retrato da desarticulação dos trabalhos. A rua está lotada de crianças que necessitam de atendimento”, acrescenta a funcionária, que pediu para não ter a identidade divulgada. 

Coordenadora do Centro de Apoio Operacional (CAO) da Infância e Juventude, do MP-GO, a promotora de Justiça Liana Antunes Vieira Tormin entende que o município deve investir em medidas protetivas. “Nem sempre é correto dizer que crianças e adolescentes têm direito de permanecer na rua, porque ainda não possuem autonomia para fazer suas escolhas. O município tem de prestar todo atendimento necessário para que os olhos deles sejam abertos para as oportunidades”, afirma Liana, ressaltando que essa responsabilidade também é da família e da sociedade.

Políticas deturpadas

Presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil em Goiás (OAB-GO), Alexandre Prudente Marques defende investimentos que possam atingir a raiz do problema, que se ramifica. “As políticas de Estado são feitas de forma deturpada. Os gestores aumentam recursos para a segurança pública, revelando que tratam a questão sob a lógica da violência e repressão. Vivemos em situação de barbárie”, alerta o advogado.

Também vinculada à OAB-GO, mas na presidência da Comissão de Direitos Sociais e Acesso à Justiça, a advogada Diane Jayme salienta a falta de atenção e projetos sociais que abarquem questões domésticas, como violência e problemas financeiros, impulsionando a busca de crianças e adolescentes pela “liberdade” da rua. “Se não houver políticas públicas de prevenção às famílias em crise, as crianças terão seus caminhos desvirtuados e se perderão no abandono”, ressaltou a advogada. “A saída é investimento pontual, com mapeamento de focos carentes, forn


Cleomar Almeida
fotos: Fábio Lima




domingo, 30 de outubro de 2011

O SEGUNDO ABANDONO


Tornam-se comuns casos de crianças adotadas e, depois, devolvidas. E a Justiça não sabe como lidar com esse problema


Crianças adotivas não têm um passado feliz. Vão morar com famílias substitutas, em geral, porque viveram tragédias pessoais – foram abandonadas, vítimas de maus-tratos ou da miséria ou porque os pais biológicos morreram. Muitas têm a sorte de encontrar lares afetivos e formar laços sólidos. Uma parcela dessas crianças, porém, passa por outras experiências avassaladoras: o segundo, o terceiro abandono. São “devolvidas” à Justiça pelos pais adotivos ou guardiões e acabam em abrigos. Embora não exista um levantamento nacional, estatísticas regionais revelam que essa questão é grave e não deve ser desprezada. Das 35 crianças e adolescentes disponíveis para adoção na Associação Maria Helen Drexel, na zona sul de São Paulo, 11% já passaram por esse drama. Em apenas uma das varas da infância da cidade do Rio de Janeiro, ocorreram oito devoluções no primeiro semestre deste ano. Três de cada dez crianças e adolescentes que estão em abrigos de Santa Catarina foram devolvidos ao menos uma vez.

Devoluções ocorrem em três situações. Durante o estágio de convivência, em que a adoção definitiva ainda não foi efetivada, depois da adoção formalizada ou quando a família tem a guarda da criança. “Muitas devoluções poderiam ser evitadas. Mas o Judiciário brasileiro não tem estrutura para acompanhar esses casos como deveria”, afirma Mery-Ann Furtado e Silva, secretária-executiva da Comissão Esta­dual Judiciária de Adoção (Ceja) de Santa Catarina. Ela avalia que um dos principais problemas é que há pessoas que sonham com o “filho ideal” e, quando confrontadas com os desafios de educar uma “criança real”, não dão conta de lidar com “imperfeições” que, em filhos biológicos, seriam toleradas. “Estamos engatinhando no processo de preparação dessas famílias”, diz Mery-Ann. “Principalmente quando a criança é adotada mais velha, porque ela traz consigo componentes importantes que devem ser trabalhados.”


DRAMA
11% das crianças disponíveis para adoção na Associação Maria Helen Drexel já foram devolvidas


Recentemente, a Justiça catarinense não aceitou que um casal devolvesse apenas um dos filhos adotivos – um garoto de 13 anos – e determinou a destituição do pátrio poder também sobre a irmã biológica dele – uma menina de 10 – porque considerou que ambos sofreram abuso emocional. Marcelo* e Tainá* foram adotados em 2004, por integrantes da classe média alta da região de Blumenau. Por uma professora universitária e um estrangeiro. Um homem ausente que, segundo relatos, não se comunica bem em português e vive às voltas com estudos no Exterior. “Eu me apaixonei pela Tainá. Deus a fez para mim. Ela quer ser minha e eu dela”, declarou a mãe adotiva a profissionais do Judiciário local. Como os magistrados raramente separam irmãos, o casal decidiu adotar Marcelo para não perder Tainá. Ele tinha 6 anos. Ela, 3. No abrigo onde morava, Marcelo era descrito como “muito normal” e “carinhoso”. Não havia nos registros algo que o apontasse como garoto-problema. Os irmãos seguiram para a casa da família e se juntaram a Maurício*, filho biológico do casal.

As rusgas com Marcelo começaram logo no primeiro dia. De acordo com a mãe adotiva, o menino levou uma surra porque deu um chute no pai. Diversas pessoas que conviveram com eles contaram, em depoimento, que Marcelo nunca foi aceito como filho e não houve grande esforço do casal para inseri-lo no contexto familiar. Marcelo sempre se sentiu indesejado. Tinha de ir a pé para a escola, num bairro vizinho. Tainá e o filho biológico frequentavam outros colégios e eram levados de carro. Se Marcelo fizesse alguma traquinagem, era punido severamente. Tainá e Maurício, muitas vezes, nem sequer eram repreendidos. Se Marcelo fizesse xixi na cama, tinha de lavar os lençóis. Tainá, não. A mãe adotiva chegou a dizer que no início sentia um carinho pelo menino. Mas, depois, passou a odiá-lo. Quando um oficial de justiça foi buscar as crianças para levá-las para um abrigo, a mulher se desesperou ao ser informada de que a menina também iria embora. Aos gritos, disse: “Isso é coisa do Marcelo, ele está se fingindo de doente para a juíza ficar com pena e levar a Tainá também. Ele não suporta ver que a Tainá é amada. O Marcelo é psicopata, precisa de um psiquiatra.”


DOR
Raquel foi devolvida depois de 6 anos. A psicóloga Helena diz que a menina entrou em depressão


Na ação de destituição do poder familiar, o desembargador Joel Dias Figueira Júnior escreveu que “a desprezível prática da ‘devolução’ de crianças começa a assumir contornos de normalidade”. E que observa “a tomada de vulto, em todo o território nacional, de situações idênticas ou semelhantes” à vivida por Marcelo e Tainá. No Rio de Janeiro, um levantamento feito pelo Serviço Social e de Psicologia da Vara da Infância, da Juventude e do Idoso da Comarca da Capital mostra que esse problema vem crescendo. Entre 2005 e 2010, 20 crianças foram devolvidas àquela vara. E, apenas no primeiro semestre deste ano, ocorreram oito devoluções. “As crianças são trazidas como objetos”, lamenta a psicóloga Patrícia Glycerio R. Pinho. “Quando o vínculo de filiação não se dá, pequenas dificuldades se tornam grandes. Às vezes, os pais adotivos não percebem que estão sendo testados e acham que é ingratidão da criança. Imperfeições num filho adotivo são mais difíceis de ser acolhidas porque os pais pensam: ‘isso não pertence a mim porque não o gerei’.”

Patrícia já viu e ouviu uma porção de absurdos. Certo dia, uma mãe adotiva, de bom nível sociocultural, ficou indignada porque a filha andava vomitando. “Estou dando salmão e ela nunca tinha comido”, reclamou. Outra, depois de um ano e meio, devolveu três irmãos ao conseguir engravidar. As crianças já tinham até trocado de nome. Foi um baque. “Geralmente, os pais vêm com uma posição fechada”, diz a psicóloga Patrícia. “O que é pior: a criança ficar numa casa onde já não tem espaço ou ir para um abrigo e tentarmos recolocá-la numa outra família?” Lidia Levy, psicóloga e professora da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, uma das autoras do trabalho “Família é muito sofrimento: um estudo de casos de devolução de crianças”, relata que está havendo uma mudança no perfil dos adotados. “Praticamente inexistem bebês disponíveis. Por isso, há quem não queira esperar na fila e acaba aceitando crianças mais velhas”, afirma Lidia. “Mas, se essa mudança não for bem trabalhada, pode não dar certo.”


"O Judiciário brasileiro não tem estrutura para acompanhar esses casos como deveria"
Mery-Ann Furtado e Silva, secretária-executiva da Ceja-SC

A pequena Raquel*, 10 anos, ficou seis anos sob a guarda da madrinha – a quem chamava de mãe – depois que a mãe biológica morreu. Durante muito tempo, a convivência foi pacífica. Mas, nos últimos meses, as desavenças com o filho biológico ficaram frequentes. “Eu e meu irmão brigávamos bastante, um irritava o outro, e o esposo da minha madrinha não me quis mais”, lembra Raquel. A menina vive na Associação Maria Helen Drexel e diz que quando sair do abrigo vai procurar pela guardiã. “A Raquel tem um amor imenso por ela”, analisa Helena Zgierski, psicóloga da associação. “Apresentou depressão e um quadro psiquiátrico complicado quando chegou aqui. Passou dias e noites sem dormir nem comer. Só chorando. Crianças devolvidas se culpam e acham que não são boas o suficiente.” Helena afirma que pessoas que procuram uma criança com a intenção de fazer caridade ou para salvar um casamento, por exemplo, têm enormes chances de fracassar. “O amor tem de ser incondicional, porque a gente não sabe o que a criança traz registrado”, avalia.
"Crianças devolvidas se culpam e acham que não são boas o suficiente"
Helena Zgierski, psicóloga da Associação Maria Helen Drexel

Em todas as histórias de devolução que Helena conhece, havia um filho biológico na família. “Existe uma disputa por amor e espaço. É um outro ser que está chegando. A criança que vai ganhar um irmão também tem de participar desse processo”, diz ela. Foi o que aconteceu com Paula*, 8 anos, e Lauro*, 4. Depois de 11 meses de convivência com um casal de São Paulo, os dois foram devolvidos e estão num abrigo. Paula e o filho biológico do casal, Gustavo*, viviam às turras. Além das brigas constantes, ela e Lauro têm um histórico difícil. Moravam na rua com a mãe biológica e passaram por situações de privação e maus-tratos. “Eu bagunçava muito onde fui adotada. Ficava xingando todo mundo. Batia nas pessoas quando ficava com raiva. Desobedecia minha mãe”, admite Paula. “Meu pai não aguentava meu choro e minha bagunça e me batia.” A menina se culpa pela devolução e pela tristeza do irmão pequeno. Lauro ainda pergunta pelo pai adotivo: “Por que ele não vem me buscar?” 



quinta-feira, 27 de outubro de 2011

LEIS CONTRA PEDOFILIA E PORNOGRAFIA INFANTIL AGRAVADAS NA UE




O Parlamento Europeu aprovou por maioria esmagadora uma diretiva que harmoniza e agrava a legislação comunitária contra a pedofilia e a pornografia infantil. O texto abrange os crimes de abuso sexual de crianças e a divulgação via Internet de imagens pornográficas que incluam crianças, no espaço europeu.

A diretiva autoriza igualmente os Estados-Membros a proibir o acesso a imagens de pornografia infantil mesmo que os servidores estejam situados no estrangeiro.

A directiva aprovada esta tarde no Parlamento Europeu prevê sanções penais para cerca de 20 crimes, um número bastante elevado em relação ao que é habitual na legislação europeia.

De forma genérica, nos países da União Europeia (UE) obrigar uma criança a prostituir-se ou a cometer atos sexuais vai passar a ser punido com pelo menos 10 anos de prisão.

Os produtores de imagens pornográficas infantis incorrem numa pena mínima de três anos e aqueles que as descarreguem para os seus computadores arriscam pelo menos um ano de cadeia.

Os países que queiram, podem prever penas mais pesadas.

Abuso de menores por tutelares especialmente punido

Mas, conforme exigido pelos eurodeputados, as sanções serão agravadas quando o crime for cometido por um membro da família, por uma pessoa que coabita com a criança ou que "abusou de uma posição manifesta de tutela ou da sua autoridade" (como professores, educadores de infância, etc).

As sanções serão também mais pesadas se o crime for cometido contra uma criança numa situação particularmente vulnerável, nomeadamente devido a deficiência mental ou física ou a um estado de incapacidade, como o causado pela influência de drogas ou álcool.

A diretiva criminaliza igualmente a solicitação de crianças "via net", abrangendo os pedidos de amizade a crianças na internet com vista a abusar delas, tal como o turismo sexual infantil, seja o crime seja cometido no território de um Estado-Membro ou por um cidadão europeu fora da UE.

Quanto às imagens de pornografia infantil, cada Estado-Membro fica ainda obrigado a remover o mais depressa possível da Rede as páginas sediadas no seu território que contenham pornografia infantil.

Caso o servidor das páginas electrónicas que contenham ou difundam pornografia infantil se encontre no estrangeiro, os Estados-Membros deverão procurar junto das autoridades nacionais que as ditas imagens e páginas electrónicas sejam apagadas.

Se tal se revelar impossível, ou se o processo de o conseguir for demasiado longo, os Estados-Membros ficam legalmente autorizados a bloquear o acesso às imagens, dentro das suas fronteiras.

Estudos revelam que entre 10% a 20% das crianças na Europa sofrem alguma forma de abuso sexual.

Dois anos para harmonizar legislação

A directiva prevê ainda que uma pessoa condenada possa ser "impedida, temporária ou permanentemente, de exercer actividades pelo menos profissionais que impliquem contactos directos e regulares com crianças". E autoriza eventuais empregadores a solicitar informação sobre a existência de condenações por este tipo de crimes, desde que estejam a recrutar pessoal para actividades profissionais ou voluntárias com crianças.

O projeto de lei já tinha sido aceite entre os governos dos 27 e a diretiva deverá ser formalmente aprovada pelo Conselho de Ministros da UE antes do final deste ano.  A partir dessa data, os países têm 2 anos para harmonizar a sua legislação conforme a diretiva hoje aprovada.