segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O QUE SÃO OS MAUS-TRATOS ÀS CRIANÇAS?


O aumento do índice de agressões às crianças estaria relacionado às estatísticas crescentes da pobreza e maior exposição ao estresse, além da facilidade de acesso às drogas e da disseminação da violência pela mídia 

por Agência Notisa de jornalismo científico


Existem poucos dados referentes à incidência de maus-tratos infantis no Brasil. Algumas instituições, como a Universidade de São Paulo, pelo extinto Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), a SOS Criança, a Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia) e o Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância (Crami) realizam estudos estatísticos, mas que ainda não cobrem todo o território nacional.

Com o objetivo de disponibilizar mais dados que contribuam para o conhecimento dessa realidade, o médico Antônio Carlos Alves Cardoso desenvolveu o estudo "Maus-tratos infantis: estudos clínico, social e psicológico de um grupo de crianças internadas no Instituto da Criança do Hospital das Clínicas da FMUSP".

A pesquisa de Antônio mostra que, nos últimos anos, a notificaçãode crianças submetidas a maus-tratos aumentou. Isso poderia ser um bom dado, porém, ele explica que ainda é difícil avaliar se o aumento reflete a maior preocupação aliada ao maior conhecimento do assunto - o que implica em mais diagnósticos - ou o maior número de agressões.

De qualquer forma, o estudo aponta quais fatores podem contribuir para um real aumento na incidência de agressões. Entre eles, o incremento da violência entre as populações, estimulada pelo aumento da pobreza com consequente piora do padrão de vida, maior exposição ao estresse, principalmente nos grandes centros, mais facilidade de acesso a drogas e disseminação da violência pela mídia.

Segundo o especialista, entende-se por maus-tratos infantis um grupo de fatores ou uma situação de abuso à criança. Existem várias modalidades para esses maus-tratos: abuso físico, abuso sexual, abuso psicológico, negligência e a síndrome de Münchausen: uma doença psiquiátrica em que o paciente, de forma compulsiva, deliberada e contínua, causa, provoca ou simula sintomas de doenças, sem que haja uma vantagem óbvia para tal atitude que não seja a de obter cuidados médicos e de enfermagem.

A negligência emocional tem sido, na prática, considerada como a falta de responsabilidade e de "calor" materno

A negligência, segundo o especialista, é o tipo de agressão mais frequente. No entanto, é o que apresenta maior dificuldade para ser definida. "Esta dificuldade reside no fato de não haver total acordo sobre a medida do que é adequado para uma determinada criança. Para reconhecimento da agressão, necessita-se de profissionais experientes para estabelecer o padrão de inabilidade ou falta de vontade dos pais ou responsáveis para prover à criança as necessidades mínimas aceitáveis", diz.

Como consequências desse tipo de maus-tratos, Antônio esclarece que as crianças podem apresentar subnutrição, alteração do desenvolvimento neuropsicomotor, alteração do desenvolvimento pondo-estatural, queimaduras, ferimentos por falta de supervisão, falta de higiene, dificuldade de linguagem, hiperatividade, déficit de concentração, etc.

Quando a convivência é sadia e os responsáveis possuem valores contrários aos maus-tratos a criança terá um desenvolvimento livre de traumas familiares"?

Quando a negligência é emocional - também chamada de abuso psicológico - ela compreende a deterioração do ambiente interpessoal da casa e induz alguns aspectos negativos na criança em relação ao senso de segurança física e emocional, aceitação, autoestima, consideração e autonomia. "Embora haja pouco consenso sobre a definição, a negligência emocional tem sido, na prática, considerada como a falta de responsabilidade e de 'calor' materno ou, ainda, a falta de consistência e predeterminação no trato com a criança, especialmente no plano disciplinar", explica.

Sobre a síndrome de Münchausen, é uma situação na qual uma pessoa inventa doenças ou situações para ir ao médico. Nas crianças, é chamada de síndrome de Münchausen por transferência. "Nesse caso, o adulto, normalmente a mãe, se utiliza da criança com esse pretexto. Ele inventa ou cria uma situação na criança, levando-a a ficar doente, para com isso estar em contato com o meio médico. É uma doença psicológica", esclarece. 

"Geralmente confundem os médicos por sua amabilidade, total cooperação, aparência de equilíbrio e afeto pelo filho ao qual visitam no hospital com uma frequência não habitual. Por outro lado, ao serem entrevistadas, acabam por mostrar personalidade histérica, depressão ou graves transtornos de relação mãe-filho."

Método e resultados

Outro achado importante do estudo é que os pacientes que não voltaram a residir com os responsáveis (por adoção, institucionalização ou novo núcleo familiar) apresentaram sensível melhora de suas condições físicas e sociais quando comparados àqueles que retornaram ao núcleo familiar inicial. Porém, o médico ressalta que a evolução das suas condições psicológicas foi insatisfatória, independentemente do destino após a alta hospitalar.

Segundo o médico, além dos exames físicos e laboratoriais, conhecer a história clínica da criança é fundamental para o diagnóstico de abuso. Ele explica que essa tarefa começa perguntando-se para a criança o que aconteceu - passo crucial na diferenciação entre trauma intencional e acidental. "Outros pontos importantes a serem observados são: pais que omitem total ou parcialmente a história de trauma; pais que mudam a história toda vez que são interrogados; histórias diferentes quando são questionados os membros da família isoladamente; demora inexplicável na procura de recursos médicos na presença evidente de trauma; crianças maiores que não querem relatar o que aconteceu, com medo de represálias, em especial quando os agentes agressores são os pais", ressalta o texto do estudo.

Como as consequências dos maus--tratos fogem à esfera física, incluindo consequências de ordem emocional que podem ser bastante graves e persistir por longo tempo ou, até mesmo, por toda a vida, Antônio explica que toda a abordagem deve envolver, além da equipe médica e de enfermagem, psicólogos e assistentes sociais e contar com a presença de esferas legais do poder. "Contudo, é importante lembrar que, por mais evidências que tenhamos, nós nunca fazemos o diagnóstico de abuso. Nós fazemos a suspeita clínica. A partir daí, a criança é encaminhada para as varas de infância e juventude."




Condições psicológicas

Entre os resultados da pesquisa, Antônio conta que 73,6% das crianças tinham até 2 anos e apresentavam as mais variadas lesões - desde fraturas múltiplas, fraturas de crânio e quadros de hemorragia intracraniana. "As crianças submetidas a abuso físico, quando necessitam de tratamento em regime de internação hospitalar, apresentam alta letalidade e alto índice de sequelas neurológicas graves", diz.

O estudo também comprovou que, independentemente das condições sociais e físicas, a maioria dos pacientes mostrava algum traço negativo em seu comportamento, predominando baixa autoestima, dificuldades escolares, traços depressivos e dificuldade de relacionamento.

Unicef defende nova abordagem para as políticas de proteção às crianças

Percebendo que estratégias para o combate aos abusos contra crianças frequentemente se constituem de iniciativas fragmentadas, cujos resultados ainda estão longe dos ideais, a United Nation's Children's Fund (Unicef), juntamente com outras organizações mundiais, como a Ssave The Children e a United Nations High Commissioner for Rrefugees (UNHCRr), passou a defender a necessidade de um sistema de defesa mais amplo e conjuntural.

De acordo com o órgão da OoNU, programas voltados para a proteção de crianças são focados para combate específico de problemas como violência, exploração, abuso, negligência, trabalho infantil e tráfico de crianças. Na visão dos autores, esta abordagem, ainda que possa ser benéfica para um grupo delimitado de crianças, "pode resultar em programas falhos", uma vez que o foco em temas isolados é preterido à "compreensão de como cada um desses pontos se relaciona num sistema geral".

O ideal, segundo a Unicef, é a instauração de uma política de proteção que aborde conjuntamente vários fatores de risco ao bem-estar e à saúde das crianças, coincidindo ao mesmo tempo com iniciativas da família, comunidade e finalmente toda a sociedade para garantir os direitos básicos de toda criança.



Além dos exames físicos e laboratoriais, conhecer a história clínica da criança é fundamental para o diagnóstico de abuso

Segundo Antônio, a rotina de maus-tratos pode gerar um ciclo perigoso, já que a criança abusada, hoje, pode se tornar um adulto problemático amanhã, com boas chances de repetir na sua família a sua história de violência. "O impacto da exposição à violência vai além dos distúrbios comportamentais e emocionais. Ele afeta a percepção das crianças em relação ao mundo e a elas próprias, suas ideias sobre o significado e os propósitos da vida, suas expectativas referentes à felicidade futura e o seu desenvolvimento moral", mostra o estudo.

Entretanto, as consequências podem variar de acordo com a especificidade de cada situação. Segundo Marina Rezende Bazon, psicóloga pós-graduada pela USP, ainda que os casos chamados de "puros" (onde só há abuso psicológico, físico ou negligência, sem influência de nenhuma outra modalidade) sejam raros, cada um deles pode acarretar problemas distintos. A psicóloga, que vem atuan- do em linhas de pesquisa voltadas para os "maus-tratos contra a criança e o adolescente", explica que o reflexo de sofrer abusos físicos normalmente se manifesta em dois extremos: ou a criança se torna agressiva, brigando nos esportes e com seus colegas; ou desenvolve uma personalidade acolhida, sendo "supermedrosa no contato com adultos", o que aparece também como uma dificuldade em lidar com figuras de autoridade e professores.

Já o abuso psicológico, segundo Marina, é um "quadro que produz muita sintomatologia, como queixas de natureza psicossomática na criança, como se tivessem muitas dores de estômago e na cabeça", ressalta. A negligência, por sua vez, é uma das modalidades às quais é preciso estar especialmente atento, uma vez que geralmente se estabelece ao longo do tempo por remeter a padrões de cuidado dos pais, sendo associada, em situações extremas, com casos de óbito. "Se compararmos o impacto da negligência ao das outras modalidades, mesmo do abuso sexual, as crianças negligenciadas de forma crônica têm mais déficits, mais problemas que todas as outras", alerta.

A Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacam que ter vivido situações abusivas tem influência mesmo na vida adulta. Este tipo de expe- riência tem relação direta com o desenvolvimento de problemas psicológicos, como depressão e transtornos alimentares, além de estar associado à obesidade, maior suscetibilidade ao abuso de drogas e ao comportamento sexual de risco, podendo ser responsável também por adultos com condutas de trabalho ineficientes e relações sociais baseadas em violência. Um relatório da OMS lembra que, devido a estas consequências, maus-tratos a crianças deixam de ser um problema exclusivamente familiar para afetar toda a sociedade, não só pelo desenvolvimento de cidadãos com sérios problemas de adaptação social, mas também pelo impacto econômico de custos como hospitalização e tratamentos destes indivíduos.

Figuras que contraponham a negatividade associada à pessoa responsável pelos maus-tratos podem ajudar a garantir um desenvolvimento menos traumático. "Digamos que na família o abusador físico seja o pai, mas a mãe tenta proteger, mediar, de forma que o impacto (dessa experiência de maus-tratos) é moderado", exemplifica. Pessoas de fora do ambiente familiar também podem fazer este papel. "A criança pode ir para uma escola onde há uma ou mais professoras bem adequadas, no sentido de serem mais sensíveis, mais delicadas, e funcionarem como figuras de cuidado e apoio, o que atenua [os efeitos do abuso]", diz, ressalvando a importância de que profissionais que trabalham diretamente com crianças tenham em sua formação o conhecimento dos sintomas geralmente associados com maus-tratos, para que possam identificá-los e, a partir daí, oferecer ajuda.




Quem maltrata e por quê?

O estudo do pediatra Antônio Cardoso verificou que, em situações de maus-tratos infantis, encontram-se com frequência pais emocionalmente imaturos, neuróticos e psicóticos, mentalmente deficientes e ignorantes, sádicos, criminosos, toxicômanos, incluindo alcoólatras e "disciplinários". Contudo, o padrão é o de pais aparentemente normais, o que, para o médico, pode ser um dado que dificultará muito mais o diagnóstico.

Para Adriana Marcassa Tucci, professora do Departamento de Saúde, Educação e Sociedade da Universidade Federal de São Paulo, existem vários fatores que podem deixar um indivíduo em uma situação de risco psíquico. A psicóloga, que é doutora em psicobiologia pela Unifesp dentro da temática de abuso de álcool e outras drogas e violência contra criança, explica que o abuso e/ou dependência de substâncias psicoativas, como ál- cool e outras drogas, têm sido associados a situações de maus-tratos (abuso ou negligência) contra a criança. "Por exemplo, na fase de abstinência da substância ou sob o seu efeito, o indivíduo pode ficar com muita irritabilidade e cometer atos violentos ou negligentes. Situações de abuso sexual contra crianças também têm sido associadas ao consumo excessivo de álcool e de outras drogas", explica.

Conflitos familiares e de casal podem deixar o ambiente mais propício para se cometerem atos de violência contra a criança

Mas, segundo Adriana, alguns aspectos sociais também podem deixar uma criança em situação de risco. "Maior vulnerabilidade está presente em situações sociais menos favorecidas. A pobreza é uma situação de risco, pois vários fatores, na maioria das vezes, estão presentes nela, tais como: desemprego, condições insatisfatórias de moradia, de educação, de saneamento básico, de acesso a serviços de saúde, convivência com o tráfico de drogas e violência associada a este, entre outros", afirma.

Os fatores de vulnerabilidade e risco, segundo Adriana, envolvem, portanto, não só os fatores presentes no âmbito familiar, mas também questões sociais, culturais e mesmo a presença de eventos estressantes. Além disso, conflitos familiares e de casal podem deixar o ambiente mais propício para se cometerem atos de violência contra a criança.

Como prevenir?

Para Adriana, a prevenção engloba muitas esferas, e as 
ações preventivas devem ter o apoio do Ministério da Saúde, destinando verba, treinando profissionais, etc. "A prevenção pode ser feita no primeiro nível social, onde a violência ainda não aconteceu com famílias que apresentam características de vulnerabilidade e risco. Nestes casos, a prevenção deveria envolver o trabalho do agente comunitário, vinculado aos serviços de atenção básica à saúde, na divulgação dos malefícios que a violência causa à criança e incentivando a denúncia, por exemplo. A prevenção pode ser feita também nas escolas, onde é possível trabalhar com os pais e com a própria criança", considera.


Segundo a psicóloga, a prevenção aos maus-tratos à criança onera menos o sistema de saúde do que o trabalho com a vítima - o que exige uma atenção mais especializada e, por isso, mais cara. "Embora o SUS preconize a prevenção, ainda temos poucos municípios investindo na porta de entrada do Sistema Único de Saúde, ou seja, na prevenção. No Brasil, não vemos muitos investimentos na atenção primária. Porém, temos exemplos de países, como Austrália e Estados Unidos, que mostram que é possível prevenir os maus-tratos infantis, sim. Para atingir resultados significativos, porém, a prevenção primária deve ocorrer em parceria de maneira intersetorial - educação, assistência social, saúde, jurídico, etc.", ressalta.






SÍNDROME DE MUNCHAUSEN POR PROCURAÇÃO (OU POR TRANSFERÊNCIA) - MAIS UMA FORMA DE ABUSO CONTRA CRIANÇAS

Os pais com síndrome de Munchausen por procuração fingem que
seus filhos estão doentes
No fim da década de 1970, um pediatra britânico, chamado Roy Meadow, publicou a descrição de dois casos médicos desconcertantes. Em um caso, uma garota de 6 anos, chamada Kay, foi internada no hospital 12 vezes por uma infecção no trato urinário (em inglês) e medicada com oito antibióticosdiferentes, tudo isso sem sucesso. No outro caso, um garoto de 1 ano e 2 meses, chamado Charles, foi hospitalizado muitas vezes com sonolência e vômitos que não tinham uma causa médica aparente. Meadow acabou descobrindo que os dois casos, apesar de parecerem diferentes, tinham muito em comum. A mãe de Kay alterou as amostras de urina para parecer que a criança estava doente. A mãe de Charles induziu a doença dando grandes quantidades de sal ao garoto, que acabou morrendo.

Meadow chamou essa doença, em que os responsáveis intencionalmente falsificam informações ou causam danos a seus próprios filhos para conseguir compaixão, de síndrome de Munchausen por procuração. Por procuração significa "por meio de um substituto". O responsável, e não a pessoa doente, é quem está fingindo ou causando a doença.

A síndrome de Munchausen por procuração também foi chamada de síndrome de Polle, por causa do filho do Barão von Munchausen, chamado Polle, que segundo relatos morreu sob circunstâncias misteriosas próximo da época em que faria um ano. Alguns especialistas, no entanto, dizem que as informações históricas estão incorretas e o termo não é mais usado.

Essa doença é muito rara - existem apenas cerca de mil casos por ano, de acordo com as melhores estimativas. O cenário mais comum é uma mãe fingindo que seu filho está doente ou deixando a criança doente porque ela deseja a compaixão que recebe como resultado disso. A mãe pode mudar os resultados de exames, por exemplo, colocando uma substância estranha em um exame de urina, injetar substâncias químicas na criança, negar comida, sufocar a criança ou dar remédios para causar-lhe vômitos. Em seguida, a mãe insiste que a criança seja submetida a vários exames e procedimentos para tratar o suposto problema. Como a vítima é uma criança, a síndrome de Munchausen por procuração é considerada uma forma de abuso infantil.

Uma pessoa que sofre de síndrome de Munchausen por procuração pode estar em busca de atenção porque sofreu abusos ou perdeu um dos pais quando era criança, por estar passando por problemas sérios no casamento ou uma outra grande crise de estresse. Ser visto como uma mãe ou um pai atencioso pela equipe do hospital é uma maneira de receber o reconhecimento que ela ou ele pode não ter recebido de outra maneira.

Sinais da síndrome de Munchausen por procuração

Os sinais da síndrome de Munchausen por procuração incluem:
Criança que é freqüentemente hospitalizada com sintomas incomuns e inexplicáveis que parecem desaparecer quando o responsável não está presente;

Sintomas que não condizem com os resultados dos exames da criança;

Sintomas que pioram em casa, mas melhoram quando a criança está sob cuidados médicos;

Remédios ou substâncias químicas no sangue ou na urina da criança;

Irmãos da criança que morreram sob circunstâncias estranhas;

Responsável que é preocupado demais com a criança e excessivamente disposto a obedecer os profissionais da saúde;

Responsável que é enfermeiro ou trabalha na área de saúde.

Pegos pela câmera

Na década de 1990, o Dr David Southall, da Inglaterra (em inglês), realizou uma experiência usando câmeras de vigilância escondidas em quartos de um hospital para flagrar as pessoas suspeitas de sofrerem de síndrome de Munchausen por procuração. Suascâmeras de vídeo (em inglês) capturaram imagens horríveis de mães sufocando e envenenando suas crianças. Dos 39 suspeitos que ele gravou, 34 foram flagrados machucando seus filhos e os outros cinco admitiram, depois, terem matado as crianças.

Embora Southall tenha sido considerado o defensor das crianças em alguns círculos, ele foi difamado como inimigo das mães em outros. Muitos pais foram enviados para a prisão e alguns afirmam terem sido acusados injustamente, com base nas evidências que ele forneceu. Em 2004, Southall foi considerado culpado por um grave delito profissional depois de ter feito uma acusação falsa de que um homem havia matado seus filhos, e foi temporariamente impedido de trabalhar com vítimas de abuso infantil.


domingo, 8 de janeiro de 2012

RECONHECENDO E DENUNCIANDO O ABUSO E A VIOLÊNCIA INFANTIL




Praticar violência contra uma criança é crime. E para isto existe uma legislação específica – O Estatuto da Criança e do Adolescente –que está aí para determinar a punição. No Brasil é caso de polícia.

• Só para se ter uma idéia da gravidade da questão, é bom lembrar que todos os dias mais de 18 mil crianças são espancadas no país, segundo dados da UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância. Segundo a UNICEF, as mais afetadas são meninas entre sete e 14 anos.

• No Brasil, onde existe uma população de quase 67 milhões de crianças de até 14 anos, são registrados por ano 500 mil casos de violência doméstica de diferentes tipos. Em 70% dos casos os agressores são pais biológicos.

A violência contra a criança é crescente, mas nem sempre ocorre na forma de abuso sexual, tema que vem sendo amplamente discutido. Levantamento inédito do Núcleo de Atenção a Criança Vítima de Violência, da Universidade do Rio de Janeiro(UFRJ) mostra, com base de dados coletados de 1996 a Junho deste ano, que:

• 29,1% de meninos e meninas são vítimas de abuso físico.
• A violência sexual aparece em segundo lugar – 28,9%
• 25,7% sofreram negligência
• 16,3% abuso psicológico

Atitudes de pessoas responsáveis que desejam proteger as crianças:


RECONHECER O COMPORTAMENTO ABUSIVO

O abuso de crianças diz respeito a um ato cometido por um pai, responsável ou pessoa em posição de confiança (mesmo que não cuide da criança no dia-a-dia), ato que não seja acidental e que prejudique ou ameace prejudicar a saúde física ou mental e o bem-estar da criança. Há quatro tipos básicos de abuso no caso de crianças:

abuso físico ocorre quando um adulto machuca uma criança fisicamente, sem ter havido um acidente. Inclui comportamentos como:

·         Agredir
·         Sacudir ou dar palmadas
·         Queimar ou escaldar
·         Chutar
·         Sufocar

negligência consiste em maus tratos ou negligência que prejudique a saúde, o bem-estar ou a segurança de uma criança. Pode incluir negligência física, emocional ou educacional através de atos como:

·         Abandono
·         Recusa em buscar tratamento para uma doença
·         Supervisão inadequada
·         Riscos à saúde dentro de casa
·         Indiferença para com a necessidade que a criança tem de contato, elogio e estímulo intelectual
·         Nutrição emocional inadequada
·         Recusa em procurar escola para a criança
·         Sonegação de alimentos

abuso emocional afeta profundamente a auto-estima da criança, submetendo-a a agressão verbal ou crueldade emocional. Nem sempre envolve feridas visíveis. Pode incluir situações como:

·         Confinamento estrito, como num guarda-roupa
·         Educação inadequada
·         Disciplina exagerada
·         Permissão consciente para ingerir álcool ou drogas
·         Ridículo

abuso sexual envolve contato sexual entre uma criança ou adolescente e um adulto ou pessoa significativamente mais velha e poderosa. As crianças, pelo seu estágio de desenvolvimento, não são capazes de entender o contato sexual ou resistir a ele, e podem ser psicológica ou socialmente dependentes do ofensor.

O abuso sexual abrange qualquer toque ou carícia imprópria, incluindo comportamentos como incesto, molestamento, estupro, contato oral-genital e carícia nos seios e genitais. Além do contato sexual, a violência pode incluir outros comportamentos abusivos como estimular verbalmente de modo impróprio uma criança ou adolescente, fotografar uma criança ou adolescente de modo pornográfico ou mostrar-lhe esse tipo de fotos, expor uma criança ou adolescente à pornografia ou atividade sexual de adultos.

USAR DEVIDAMENTE AS OPORTUNIDADES DE ENSINAR AS CRIANÇAS

·         Ninguém tem o direito de tocar as partes íntimas do seu corpo ou fazer com que não se sintam à vontade com o que se diz de seu corpo ou o de outra pessoa. As crianças têm o direito de dizer um audível e enfático Não até mesmo a parentes e amigos que fizerem isso.
·         Os adultos não devem pedir que as crianças guardem segredo daquilo que fazem juntos. Se alguém pedir que a criança guarde esse tipo de segredo, ela deve contar a seus pais, à professora ou outro adulto, imediatamente. Pelo menos a metade de todos os casos de abuso sexual de crianças ocorre dentro da família.
·         Não devem permitir que alguém tire fotografias delas, parcial ou totalmente despidas. Se alguém sugere fazer isso ou lhes mostrar fotos de outras crianças nessa situação, devem relatar o incidente aos pais, à professora ou a outro adulto, imediatamente.
·         As crianças devem relatar aos pais, à professora ou a um adulto se alguém faz comentários tolos sobre sexo, mostra figuras pornográficas ou faz gestos obscenos (ou algum gesto que elas não entendam).
·         As crianças também devem contar se alguém lhes oferece presentes ou dinheiro.
·         Nunca devem abrir a porta para alguém, se estiverem sozinhas em casa.
·         Nunca devem dizer a alguém pelo telefone que estão sozinhas em casa. Tampouco devem responder perguntas.
·         Nunca devem entrar na casa ou no carro de alguém sem prévia autorização verbal dos pais. Não é seguro ou apropriado que os pais transmitam essa permissão através de outro adulto.
·         Não devem sentir-se responsáveis por ajudar adultos estranhos a procurar um endereço, bicho de estimação, etc. É impróprio que os adultos procurem esse tipo de ajuda com as crianças.
·         As crianças devem saber como usar o telefone numa emergência. Devem saber o número do telefone de sua casa e como usar os números de emergência. Devem ser ensinadas a acessar um operador em telefone público se não tiverem cartão.
·         Toda criança deve conhecer as três regras de “segurança e sobrevivência” para a prevenção do abuso:

DIZER NÃO!

AFASTAR-SE IMEDIATAMENTE!

CONTAR A ALGUÉM!

RECONHECER POSSÍVEIS INDÍCIOS DE ABUSO CONTRA CRIANÇA

Os possíveis indicadores de abuso mencionados abaixo não constituem necessariamente prova de que uma criança esteja sendo abusada ou negligenciada. Devem servir como sinais de alerta no sentido de se observar a situação e procurar ajuda para saber se a criança precisa ou não de ajuda. Confie nos seus instintos se achar que uma família ou pessoa está em apuros.
Alguns possíveis indícios são:

Conduta da criança

·         Comportamento autodestrutivo ou agressivo
·         Fraturas, feridas, contusões inexplicadas ou explicações improváveis para o estágio de desenvolvimento da criança
·         Depressão, passividade
·         Comportamento hiperativo ou demolidor
·         Conduta sexualizada ou conhecimento precoce de comportamento sexual explícito; pseudo-maturidade
·         Fugas, conduta promíscua
·         Uso de álcool ou drogas, desordem alimentar
·         Isolamento da criança em relação à família
·         Expectativas exageradas dos pais

Conduta dos pais

·         A raiva contra a criança parece desproporcional ao seu comportamento
·         Atitude negativa consigo mesmos ou com a criança
·         Atitude defensiva em relação com o tratamento rude que eles mesmos tiveram quando crianças

OUVIR A CRIANÇA E ACREDITAR NELA

As crianças raramente inventam histórias sobre abuso. Simplesmente não têm ainda o vocabulário ou a experiência para inventar essas histórias. O relato que uma criança faz sobre um comportamento que as deixa desconfortáveis é sempre digno de cuidadosa atenção.

AGIR DIANTE DA SUSPEITA DE ABUSO

·         Dar os passos necessários para proteger a criança de futuros abusos. Um passo importante para garantir essa proteção é relatar o fato às autoridades.
·         Fazer cessar a violência do agressor. Entrar em contato com a polícia é um passo útil para colocar o agressor no seu lugar e conscientizá-lo da responsabilidade por seus atos.
·         Fazer o contato entre a família e os serviços de apoio profissional disponíveis.
·         Reconstruir o relacionamento familiar onde o arrependimento e a mudança de conduta abrirem caminho para o perdão e a reconciliação.
·         Ajudar a família a lamentar a perda de relacionamentos importantes quando a reconciliação não for possível.

ENVOLVER PROFISSIONAIS QUE PODEM AJUDAR

Em muitas partes do mundo, pessoas em posição de poder ajudar – professores, médicos, conselheiros, policiais, assistentes sociais e outros da área da saúde – são legalmente obrigados a relatar uma suspeita de abuso ou negligência a uma autoridade que cuide dos direitos da criança. O comportamento abusivo dos agressores geralmente aumenta com o passar do tempo, se não for impedido. O envolvimento de um amplo círculo de profissionais quando se trata de um caso suspeito de abuso contra crianças resulta numa intervenção efetiva para o agressor, além de ajudar a vítima. O arrependimento, a conversão, a oração e o aconselhamento espiritual podem ajudar o agressor, mas a intervenção profissional é mais eficaz em fazer com que ele se sinta responsável por seus atos e cesse a conduta abusiva.

DENUNCIE

Quem suspeita de que uma criança esteja sofrendo agressão de qualquer forma deve encaminhar a denúncia para o Conselho Tutelar ou para o Ministério Público de sua cidade o mais rápido possível. Se ficar provado que a criança é vítima de maus tratos, o agressor será punido, e a guarda da criança passará a ser do parente mais próximo.
No caso de maus tratos, a pena varia de dois meses a um ano. Se a agressão resultar em lesão corporal de natureza grave, a pessoa pode pegar de 1 a 4 anos. Já no caso de morte, o agressor pode ser condenado de 4 a 12 anos.

DENUNCIANDO AO CONSELHO TUTELAR

O Conselho Tutelar é o órgão responsável em fiscalizar se os direitos previstos no Conselho Tutelar trabalham cinco Conselheiros, escolhidos pela comunidade para um mandato de 3 anos, que são os principais responsáveis para fazer valer esses direitos e dar os encaminhamentos necessários para a solução dos problemas referentes à infância e adolescência.
Podem ser encaminhados para o Conselho Tutelar casos de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão que tenham como vítimas crianças ou adolescentes.
Ao receber denúncia de que alguma criança ou adolescentes está tendo seu direto violado, o Conselho Tutelar passa a acompanhar o caso para definir a melhor forma de resolver o problema.
Por exemplo, se os pais de uma criança ou adolescente não encontram vagas para seus filhos na escola, ou ainda, se a criança ou adolescente estiver precisando de algum tratamento de saúde e não for atendido, o Conselho Tutelar pode ser procurado. Nesses casos, o Conselho tem o poder de requisitar que os serviços públicos atendam a essas necessidades. Requisitar, aqui, não é mera solicitação, mas é a determinação para que o serviço público execute o atendimento.
Casos as requisições não sejam cumpridas, o Conselho Tutelar encaminhará o caso ao Ministério Público para que sejam tomadas as providências jurídicas.

FONTE: CAMPANHA QUEBRANDO O SILÊNCIO E SITE NEV CIDADÃO


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

PESQUISA APONTA MAIS DE 42 MIL VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA INFANTIL EM 2011


Segundo levantamento, caso de maior repercussão refere-se a uma garota de 10 anos, estuprada pelo pai no interior do Estado

Mais de 42 mil casos de violência envolvendo crianças e adolescentes foram registrados em 2011, pelo Fórum Estadual dos Conselhos Tutelares. A informação partiu do presidente do órgão, José Edmilson Souza, na manhã desta quarta-feira (04), em entrevista ao portal Gazetaweb. Segundo ele, a maior incidência contempla maus-tratos físicos e o caso de maior repercussão refere-se a um estupro cometido por um homem, cuja vítima foi a própria filha, no município de Senador Rui Palmeira. 

Dentre as categorias elencadas pelo presidente, incluem-se abandono, a exemplo do material, através do qual pai e mãe deixam a criança desprovida de bens pessoais, perfazendo mais de 1.800 registros; drogas e alcoolismo, gerando mais de 1.500 vítimas; abuso e exploração sexual, com ênfase no perfil intrafamiliar. “Esta última categoria trouxe, aproximadamente, mais de mil ocorrências, inclusive, trazendo casos gritantes”, destacou Edmilson, reportando-se a um crime de pedofilia, ocorrido em maio do ano passado, que chocou moradores de Senador Rui Palmeira, onde uma garota de 10 anos foi estuprada pelo próprio pai; entretanto, o abuso sexual ainda se encontra “sem solução”, visto que o acusado está solto. 

Outra delimitação colocada em relatório remete-se a moradias encontradas por integrantes dos conselhos tutelares, distribuídos pelo Estado de Alagoas, o que ultrapassa 1.200 registros. Tal pesquisa documental levou em consideração a convivência do menor com a família, principalmente na região do Mundaú, constatando determinados “lares” não-compatíveis com uma mínima qualidade de vida. 

Outros dois fatores inseridos no último levantamento foca-se na mendicância (crianças e adolescentes pedindo dinheiro nas ruas, principalmente em semáforos) - com evidência nas cidades de Arapiraca, Rio Largo, Palmeira dos Índios, União dos Palmares, São Miguel dos Campos, Coruripe, Marechal Deodoro e Pilar, e contemplando cerca de 1 mil vítimas - e no trabalho infanto-juvenil. 

Para o então presidente do Fórum, houve um relativo crescimento no número de ocorrências notificadas pelos 108 conselhos tutelares da capital e do interior, em relação ao ano de 2010. “Não podemos precisar essa disparidade, mas garanto que há certas diferenças. Quanto aos números, no geral, acredito que passamos de 50 mil, pois devem ser levados em consideração os casos que não foram acompanhados pelos conselheiros”, assinalou José Edmilson ao lembrar-se da criação de mais dois conselhos, até o mês de abril, com o objetivo de “dar um maior suporte” e auxiliar na diminuição da violência no Estado. Edmilson pondera que uma das alternativas para tentar solucionar ou reduzir os casos - sejam eles de quaisquer tipos – é o investimento, por parte do Governo e da Prefeitura, em escolas voltadas ao ensino integral.