segunda-feira, 25 de julho de 2016

PESQUISADOR ESTUDA ATENDIMENTO ÀS VÍTIMAS DE ABUSO E PROPÕE MUDANÇAS

Docente da Unesp realizou o levantamento em 5 cidades do Estado de SP.


Bava espera conseguir criar um observatório para prevenir novos casos.


Tudo começou com reuniões com estudantes em escolas públicas de Araraquara (SP). “Entrávamos na sala de aula mais problemática da escola e pedíamos para as crianças contarem histórias, até que elas começaram a abordar os meus alunos perguntado por que elas tinham que ter relações sexuais dentro de casa”, conta Augusto Caccia-Bava, professor do Departamento de Sociologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Em uma das abordagens, uma criança de 10 anos contou que a mãe da amiga ‘emprestava’ a filha para o vizinho.
Com esses relatos, ele procurou a ajuda de vários especialistas, recebeu a orientação de deixar as crianças falarem, sem interrupção dos relatos, e decidiu continuar investigando a questão do abuso sexual.

Docente do campus de Araraquara, ele realizou estudos na cidade e em São Carlos, Ribeirão Preto, Bauru e São José do Rio Preto - municípios que, segundo o Ministério da Justiça, registram casos de tráfico de pessoas para exploração sexual e registram, oficialmente, cerca de 20 novos casos de violência por mês - e trabalha na criação de protocolos de atendimento para vítimas e de um observatório para prevenir novas ocorrências.

Prevenção

Caccia-Bava e seus alunos realizaram cerca de 90 entrevistas nas cinco cidades com agentes públicos responsáveis pela assistência às vítimas, como juristas, delegados, promotores, oficiais da Polícia Militar, integrantes da Guarda Municipal, assistentes sociais, psicólogos, representantes do Conselho tutelar e agentes de saúde.

Segundo o pesquisador, o levantamento apontou que os serviços de assistência social, juntamente com os Centros de Referência Especializados de Assistência Social, conseguem atender apenas cinco casos por semana e que há a necessidade de 12 assistentes sociais e 12 psicólogos em cada unidade."Não tem tempo e falta pessoal. A ausência de um corpo técnico para dar conta do problema é evidente".

Reduzir o número de casos por profissional permitiria, por exemplo, que os agentes conseguissem acompanhar as famílias.
Em 70% dos casos, segundo Bava, os agressores estão dentro de casa ou na vizinhança e o ideal seria os agentes e conselheiros visitarem as famílias. “As famílias têm que ser objeto de atenção. Sendo famílias de crianças consideradas vulneráveis, é necessário estudar o caso, ver o equilíbrio da família, se existe caso de desemprego, droga ou até prostituição dentro do lar”, relatou o professor.

“É importante também prevenir o segundo abuso. A prevenção exige mobilização intensa e permanente dos agentes públicos junto com as vítimas e os familiares”, completou.

Outra questão a ser trabalhada é o preconceito. “Existe um enorme preconceito em relação às vítimas, a sociedade precisa aceitar e abraçar essas pessoas”, disse.
“Esses casos não ocorrem apenas em regiões pobres, existem também na classe média, média alta e rica, não é uma coisa pequena”.

Observatório

Agora, com os dados compilados, Bava trabalha para criar um observatório sobre experiências de prevenção à violência sexual contra crianças e adolescentes.

O objetivo é difundir propostas de intervenção e propor um atendimento padronizado, já que, segundo o professor, não há nas unidades um protocolo específico referente ao apoio às vítimas.

Bava também quer difundir a ideia de polos de prevenção, com projetos locais em cidades que possuem universidades federais, por exemplo.

Fonte: G1 

http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2016/07/pesquisador-estuda-atendimento-vitimas-de-abuso-e-propoe-mudancas.html

sábado, 9 de julho de 2016

ENTREVISTA: O PEDÓFILO NUNCA SENTE CULPA, AFIRMA PSIQUIATRA

Psiquiatra analisa drama da aluna que foi estuprada pelo professor e garante: pedofilia não tem cura.


Há oito anos atendendo condenados por pedofilia, a psiquiatra Rita Jardim convive de perto com dramas como o da aluna A., hoje com 16 anos, que acusa o professor P. de, durante quatro anos, tê-la assediado. Os encontros aconteciam dentro de salas vazias de um dos melhores colégios particulares do Rio. 


A psiquiatra trabalha no sistema penitenciário do estado e acompanha os relatos dos presos. É ela quem analisa o perfil do pedófilo e garante que ele não tem cura. “Sempre explico ao juiz que dentro do sistema penitenciário não há crianças, por isso o preso por pedofilia apresenta bom comportamento. Deixo claro que, quando ele sair, não há como garantir que não vai atacar novamente”, explica.


Há algum sinal que indica para os pais que a criança está sendo vítima de um pedófilo?

Rita: –Normalmente a criança não fala. E os pais não percebem, a não ser que ela apareça machucada. Um dos sintomas que ela pode apresentar é a agressividade, o isolamento e perder o interesse pelo que fazia. O rendimento na escola cai. Nós, adultos, conseguimos verbalizar os sentimentos e temos condições de nos defender. A criança, não.


O que os pais podem fazer para proteger os filhos desse tipo de abusos? 

Eles precisam prezar mais o contato familiar. É importante criar pequenas rotinas, como um lanche à noite, por exemplo. É preciso e possível reunir a família nem que sejam 30 minutos por dia. Nesses momentos os pais podem perceber algo diferente no comportamento dos filhos, perguntar como foi o dia deles e conversar sobre assuntos sérios. É importante que isso seja na hora de comer, porque obriga a família a se sentar e conversar. Os pais devem ficar atentos com quem o filho conversa na Internet e quais sites visitam, porém, sem que a criança ou o adolescente se sinta vigiado. 


Há uma faixa etária em que a criança fica mais vulnerável ao abuso?

O pedófilo sente atração pelas crianças de aparência frágil. Os que se interessam por meninos preferem aqueles com idade entre nove e dez anos. Estudos comprovaram que eles olham para o menino e se identificam, se veem nele. O interesse por meninas é o que chamamos de perversão sexual. É mais fácil controlar meninas do que mulheres. 


Como um pedófilo ganha a confiança da vítima?

Ele entra no mundo da criança. Fala de assuntos do interesse dela, oferece balas, presentes. Depois começam os carinhos e os toques. Vai entrando na esfera sexual sem que a criança perceba. No início ela gosta. É normal, todo mundo gosta de carícias. Mas conforme vai crescendo, começa a entender o que está acontecendo, e não quer mais. Aí surgem as agressões e as ameaças, que devem ser levadas a sério, porque o pedófilo nunca sente culpa. Ele mata porque perde o interesse pela vítima ou porque sente prazer de vê-la sofrer. 


No caso de professores e alunos é mais fácil identificar o abuso?

Nunca é fácil se a vítima não falar. Acompanhei o caso de um pedófilo denunciado pela vítima 20 anos depois. Ele era professor de artes marciais e tinha abusado do aluno durante dois anos. Vinte anos depois, quando a vítima já era um homem e nunca havia contado o abuso sofrido, viu a foto do mesmo professor abraçado com o filho de um amigo dele. Desesperado e com a certeza que o menino também estava sendo vítima dos abusos, contou tudo para o amigo. E tinha razão. O professor foi preso e condenado pelo crime. 


No caso da jovem A. e do professor P., houve um período de dois anos em que ela se disse apaixonada. Como isso é possível?

O pedófilo sabe o que fazer para conquistar uma criança, da mesma forma que um homem maduro sabe o que fazer para conquistar uma mulher mais nova. O professor sabia como agradá-la e onde tocá-la. Sabia como atrair a atenção de uma menina de 12 anos falando de assuntos do mundo dela, o que um menino da mesma idade dela nunca conseguiria.


Depois de quatro anos sofrendo os abusos, a jovem A. acabou contando para a mãe. Geralmente, quanto tempo demora para uma vítima denunciar o pedófilo?

Percebo que do momento que a vítima resolveu denunciá-lo até o período que ela relata ter começado os abusos, já se passaram anos. Quando acontece de ser descoberto rápido foi porque a vítima tinha machucados e a mãe ou algum parente percebeu. 


Ao analisar a maneira de agir dos pedófilos condenados, há alguma característica que esteja presente na maioria dos casos?

O pedófilo nunca sente culpa. Ele é frio e nunca confessa o que fez, a não ser que sinta prazer em contar com os mínimos detalhes. Muitos colocam a culpa na vítima, alegando que foi ela quem o seduziu. Geralmente, eles são tímidos, solitários, solteiros, têm dificuldades para se relacionar com mulheres e são inseguros, por isso preferem as crianças.


Os abusadores costumam atacar mais de uma vez?

Um pedófilo não ataca mais de uma criança ao mesmo tempo, ele foca em uma e ela passa a ser o seu objeto de desejo. Pode demorar anos para atacar novamente, mas vai atacar. 


O comportamento pedófilo tem idade para se manifestar? O indivíduo já nasce com tendência a desenvolver essa doença? 

O transtorno começa na adolescência, embora alguns indivíduos relatem não terem sentido atração por crianças até a meia-idade. 


O pedófilo tem cura? 

Não. Alguns especialistas sugerem a castração química, mas entendo que isso não resolve porque ele também sente atração pelo toque e em acariciar crianças, e para isso não precisa haver penetração ou ereção. A castração química é a aplicação de doses hormonais para conter a libido, mas o problema do pedófilo está também no pensamento. Há impotentes, por exemplo.


Fonte: O Dia Online

Edição: Portal O Dia

http://www.portalodia.com/noticias/geral/entrevista-o-pedofilo-nunca-sente-culpa-afirma-psiquiatra-55566.html

A NOVINHA É APENAS UMA CRIANÇA

Graças a uma série de casos de grande repercussão, o fenômeno da erotização de meninas começa a ser problematizado pela ciência



Era para ser mais um dia de passeio na praia com a família. Kelli percebeu que dois rapazes olhavam para o seu corpo e ficou incomodada, mas não se sentiu em condições de protestar. Ela então saiu da orla para acompanhar a tia nas compras e, quando as duas entraram na fila do caixa, deram de cara com os dois sujeitos da praia. Um deles estava com uma câmera. “Não era pra eu perceber que ele estava tirando fotos, mas eu notei”, lembra. “Comecei a me perguntar por que caras de 20 e poucos anos estavam tirando fotos de mim. Percebi que tinha algo errado ali.” Kelli tinha 11 anos.

Os assédios não pararam por ali. Entre os 13 e os 14, ela ouviu muitas cantadas e comentários de cunho sexual pela rua. “Comecei a usar bermudão, camisa masculina e o cabelo preso. Só andava com homens porque entre eles conseguia me camuflar”, conta. Hoje com 18 anos, diz que episódios como o da praia ainda são comuns.

Nos últimos meses, as histórias de uma aspirante a miss de 13 anos, de uma cozinheira de 12 e de uma funkeira de 9 trouxeram à tona as diversas formas pelas quais crianças são hipersexualizadas e causaram a ira de coletivos feministas, que debatem os problemas que esse comportamento traz para o desenvolvimento dessas meninas. 

Um levantamento do site Pornhub mostra que “teen” (adolescente, em inglês) é um dos termos mais procurados do em pornografia na internet. Fora das telas versões menores das roupas de adultas são fabricadas para meninas pequenas que, antes mesmo de desenvolverem sua identidade, entendem que só têm valor se corresponderem a padrões de beleza e sensualidade. Como consequência, a autoestima delas diminui, ao passo que o número de assédios — o primeiro ocorre, em média, aos 9,7 anos, segundo o coletivo Think Olga — e de abusos sexuais.

Por muito tempo, a erotização de crianças foi vista como normal. Cercado de câmeras no Big Brother Basil 16, o participante Laércio de Moura, 53, não se constrangeu em dizer que preferia se relacionar com meninas mais jovens, "na faixa dos 17, 18 e 20 anos". Nas redes sociais, ele também já tinha dito que era "efebófilo", alguém que sente atração sexual por adolescentes. Fora da casa, porém, a repercussão da fala levou a uma investigação e, em maio, ele foi preso acusado de estupro de vulnerável.

Mas o episódio é exceção no país. Foi só recentemente que o assunto começou a ser pesquisado e problematizado. E um dos primeiros casos a chamar a atenção foi o de um concurso de beleza infantojuvenil que gerou revolta na internet.

Há 30 anos o Clube Esportivo da Penha, de São Paulo, realiza o concurso Garota Verão para premiar as sócias com idades entre 13 e 17 anos consideradas as mais bonitas do clube. A cerimônia acontece em meados de fevereiro. De bíquini, com os cabelos arrumados e rostos maquiados, as participantes desfilam por um tapete vermelho em frente a uma bancada de jurados e centenas de sócios.

No início deste ano, fotos das participantes na borda da piscina foram publicadas na página do Facebook do clube. Uma das imagens exibe uma candidata de 13 anos. “Loiríssima, olhos lindos, chegou para apimentar um pouco mais o concurso”, diz a descrição da foto. Em questão de horas, a publicação estava cheia de comentários acusando o clube de sexualizar a menina. “Gente, mas são 13 anos! Apimentar? Ela não tem idade para apimentar nada!”, escreveu um usuário.

Procurada pela reportagem, a diretoria do clube afirmou que a descrição “pode ter sido mal colocada, mas foi uma brincadeira interna”. Depois do ocorrido, a postagem em questão, bem como todas as fotos das participantes, foi deletada da página do clube no Facebook. Mas internautas já haviam registrado imagens do post e repassado pela internet, questionando a necessidade de haver um concurso desse tipo para meninas de 13 a 17 anos. O evento acontece há três décadas, mas a edição deste ano foi a primeira em que se atentou para as questões da idade e da sexualização precoce das participantes. Boa parcela desse movimento tem relação direta com a campanha #primeiroassédio, do coletivo Think Olga, que reuniu nas redes sociais milhares de histórias de mulheres que foram assediadas quando crianças. Mas parte da explicação também passa pela nossa relação com a infância, que já não é a mesma de alguns anos atrás. 

Coisa de criança

Em História Social da Criança da Família, o historiador francês Philippe Ariès explica que, na Idade Média, não existia o conceito da infância: as crianças eram vistas como pequenos adultos. Para o pesquisador, a noção de infância surge na Idade Moderna, quando meninos e meninas começam a ser insderidos no espaço da família. Mas é só a partir do século 20 que a sociedade passa a se preocupar de fato com o bem-estar e os direitos da criança. No Brasil, por exemplo, o conjunto de normas que têm como objetivo garantir esses direitos, o Estatuto da Criança e do Adolescente, só foi criado em 1990.

A forma como elementos culturais influenciam essa construção não passou despercebida para os pesquisadores. Para a especialista em representação da mulher na mídia Meenakshi Gigi Durham, da Universidade de Iowa (EUA), a publicação do livro Lolita, de Vladimir Nabokov, em 1955, criou no imaginário cultural a imagem da menina precoce e sedutora — uma ideia que permanece no inconsciente coletivo até hoje.

No romance, Nabokov conta a história do professor Humbert Humbert, que desenvolve relações sexuais com sua enteada, Dolores, de 12 anos, por quem é obcecado. Na perspectiva do protagonista, a garota — conhecida pelos familiares como Lo e pelo padrasto como Lolita — é uma ninfeta. “Entre os 9 e 14 anos de idade, ocorrem donzelas que, a certos viajantes enfeitiçados, duas ou muitas vezes mais velhos do que elas, revelam sua verdadeira natureza que não é humana, mas nínfica (isto é, demoníaca); e essas criaturas predestinadas proponho designar como ‘ninfetas’”, explica o professor no livro. No dicionário, é definida como ninfeta uma “menina jovem ou adolescente cujo comportamento ou pensamento estão direcionados para o sexo; menina que incita o desejo sexual”.

Mas essa é a visão que Humbert, um homem com o triplo de idade da enteada, tem da garota. “O crime de Humbert é o de forçá-la a agir contra a sua natureza — forçar uma criança a saltar através dos arcos da feminilidade adulta, insultando e degradando sua essência infantil”, afirma o escrito britânico Martin Amis no posfácio de Lolita (Editora Alfaguara, 2011).

“Ela é vista pelos olhos do predador como uma sedutora disposta a participar de atos sexuais, que é como predadores sempre veem as vítimas infantis. E claro, é um mito sobre o qual eles sonham a ponto de usá-lo para justificar suas ações”, explica Durham. Autora do livro The Lolita Effect: The Media Sexualization of Young Girls and What We Can Do About It (Efeito Lolita: A Sexualização de Jovens Garotas e o que Podemos Fazer Sobre Isso, em tradução livre), a pesquisadora afirma que é um equívoco enorme acusar as meninas de apresentar um comportamento visto como sensual. “Existe muita conversa sobre garotas que usam roupas sensuais e se engajam em atividades sexuais desde muito novas, e o discurso tende a culpar as meninas por tudo isso”, ressalta Durham. “Mas elas simplesmente estão reagindo a um marketing e a uma mídia agressivos que empurram na direção delas mitos de sexualização em vez de ajudá-las a entender seus próprios corpos em desenvolvimento de maneira apropriada e correta."

Parece gente grande

Em abril de 2015, o Ministério Público de São Paulo abriu um inquérito para investigar o teor de músicas e coreografias de funkeiros mirins. “São crianças e adolescentes cantando e desempenhando coreografias inadequadas para suas faixas etárias, em especial pelo forte conteúdo erótico e de apelo sexual”, disse o promotor Eduardo Dias de Souza Ferreira na época.

Uma das crianças investigadas foi Gabriela Abreu, mais conhecida como MC Melody, então com 8 anos de idade. A funkeira mirim começou a ganhar atenção na internet após a viralização de um vídeo em ela aparece fazendo a coreografia altamente erotizada da música “Quadradinho de Oito”, do grupo Bonde das Maravilhas. Naquele mesmo ano, o MP fez com que MC Belinho, pai e empresário da menina, assinasse um termo de ajustamento de conduta, compromentendo-se a cumprir uma série de medidas para garantir o bem-estar da filha, entre elas a retirada de expressões de conotação pornográfica de suas músicas e a garantia de que ela usaria roupas adequadas para sua idade. Uma das maiores acusações na época do processo era a de que MC Belinho estaria explorando a imagem da filha para lucrar. Procurado pela reportagem, o funkeiro até concordou em conversar, mas com uma condição: o pagamento antecipado de R$ 2 mil (a repórter declinou da oferta).

Passado um ano desde a abertura do inquérito do Ministério Público, Melody — atualmente com 9 anos — continua fazendo aparições na mídia. Em programas de auditório, costuma se apresentar como uma versão pequena de uma adulta. Para um quadro do programa Pânico na Band, a menina reproduziu o clipe de “Bang”, de Anitta, em que, caracterizada como a cantora de 23 anos, rebola e joga os cabelos para os lados, fazendo a coreografia acompanhada de duas dançarinas adultas.

Para os acadêmicos, essa contradição entre a busca pela garantia da inocência da infância e a erotização precoce tem nome: pedofilização. O termo foi cunhado pela pesquisadora Jane Felipe de Souza, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Ao mesmo tempo que a nossa sociedade faz leis para proteger a infância e a adolescência, também coloca os corpos infantis dentro da perspectiva de espetacularização desses corpos e da sexualidade”, explica Souza.

De acordo com ela, existem roteiros sociais que definem o que é o ideal de cada gênero antes mesmo que as crianças nasçam. Espera-se que o bebê seja durão se for menino e delicado se for menina. E as expectativas não ficam só no plano do discurso e das ideias: produtos desenvolvidos para crianças nas mais tenras idades já reproduzem esses valores.

Na pesquisa Que linda, parece gente grande — Construção de um ideal de feminilidade na infância, a pedagoga Annelise Ribeiro, também da UFRGS, conta que, ao anunciar que estava grávida de uma menina, amigos e parentes começaram a lhe enviar imagens de roupas infantis femininas. Ela logo reparou que a erotização precoce era constante nas roupinhas e acessórios para bebês do sexo feminino.Com base na análise dos catálogos de duas lojas virtuais, a pedagoga constatou a presença de transparências, ombros de fora, costas nuas e o uso de tecidos como cetim, tafetá e malhas apertadas na maioria das peças.

Em muitas das imagens estudadas por Ribeiro, as meninas aparecem como miniaturas de mulheres adultas. Segundo ela, a adultização da infância é um fenômeno do nosso tempo. “Vestir e produzir uma criança como adulto é privá-la de vivenciar situações fundamentais para o seu desenvolvimento, como a liberdade de correr, saltar, pular. Para isso, é preciso que ela use roupas que possam facilitar tais movimentos”, escreve Ribeiro. “Pulando fases, a criança não amadurecerá psiquicamente o suficiente para lidar com as transformações que virão até alcançar a vida adulta.”

Essas características não são privilégio da moda comercial. Em 2006, a doutora em Educação Dinah Quesada percebeu que os uniformes de algumas escolas também erotizam precocemente as crianças, principalmente as meninas. Na ocasião, ela trabalhava em uma escola da rede privada de Porto Alegre que oferecia versões diferentes do mesmo uniforme para meninos e meninas. “Desde a educação infantil já existia a possibilidade do investimento no corpo por meio dos uniformes, aspecto que se aprofundava no Ensino Fundamental”, diz Quesada. “Para os meninos, os ideários de masculinidade eram reproduzir o corte de cabelo da época e, se possível, usar algum acessório relacionado ao esporte. Mas esse investimento era muito mais forte nas meninas. Inclusive, o número de peças de uniforme era maior para elas.”

Para as meninas, o uniforme unissex  e as camisetas eram consideradas “roupas de menino”. Por isso, elas preferiam peças mais apertadas, como calça legging e blusas baby look. Além disso, as alunas de Quesada se envolviam com outros aspectos da aparência. “Elas não só escolhiam as peças como usavam maquiagem, faziam a unha, queriam arrumar o cabelo”, afirma. Como aponta ela em sua pesquisa, quando apareciam arrumadas, as meninas eram elogiadas pelos meninos e, por vezes, até por pais e professores; quando não o faziam, eram consideradas desleixadas.

O oposto também ocorre. No Colégio Anchieta, também de Porto Alegre, a partir do 8º ano os estudantes podem usar as roupas que quiserem — em partes: se as meninas usam shorts, são convidadas a se retirar da sala de aula; se os meninos vestem bermudas e chinelos, nada acontece. “A justificativa da escola é que o uso do shorts está proibido porque pode causar acidentes e prende a atenção dos alunos e professores. Parece que é mais importante que os meninos aprendam as matérias do que as meninas”, reclama a estudante Júlia Martins, do 2º colegial.

No fim de fevereiro, Martins e suas colegas criaram o movimento "Vai ter shortinho sim". Elas criaram um abaixo-assinado para ser entregue à diretoria. “Em vez de humilhar meninas por usar shorts em climas quentes, ensine estudantes e professores homens a não sexualizar partes normais do corpo feminino”, dizia o documento. O objetivo era conseguir cem assinaturas — elas conseguiram mais de 25 mil. Mas também tiveram de lidar com críticas que dificilmente poderiam ser classificadas como construtivas. "Já que é para ficar sem dignidade nenhuma, por que vocês não vão nuas?", dizia um comentário na página que as meninas criaram no Facebook. No final, a diretoria não liberou o uso de shorts, mas Martins não vê o episódio como de todo ruim: estudantes de colégios de todo o Brasil se inspiraram no movimento e algumas até conseguiram a permissão para usar a peça na escola. “Foi bom porque demos coragem para as pessoas. Contribuímos para que elas vissem que isso é um direito delas."

Contudo, o Efeito Lolita também opera por contradições. Enquanto Martins e as amigas eram criticadas defender o uso de shorts, a cantora Maísa Silva, de 13 anos, era acusada de ser “ser infantil demais”. Quando lançou o clipe da música “Cabelo”, em que aparece brincando e dançando com as amigas, a jovem recebeu uma enxurrada de comentários que diziam que ela não era sensual o suficiente. “Acontece que eu tenho 13 anos, ainda não sou mulher e nem quero ser uma com essa idade”, desabafou a apresentadora do SBT em suas redes sociais. “Sou uma pré-adolescente e me comporto como menina, pois conservo minha alma de criança.”

A hipersexualização de garotas novas é perceptível principalmente por meio da pornografia. Um levantamento realizado pelo Pornhub, um dos maiores sites de conteúdo adulto do mundo, revela que “novinha” e “teen” (adolescente, em inglês) são dois dos termos mais procurados no Brasil e no mundo, respectivamente. Variações da busca por corpos infantojuvenis também ocorrem em outros países: um dos termos mais buscados na França é “etudiante française” (estudante francesa); nas Filipinas, “pinay teen” (adolescente filipina) e na Argentina, jovencitas argentinas (jovens argentinas).

Ao digitar o termo “teen” no Pornhub, mais de 290 mil vídeos aparecem. Muitos deles estrelados por adolescentes e jovens mulheres. Em Miami, nos Estados Unidos, existe toda uma estrutura pronta para recrutar meninas recém-saídas do colegial, entre 18 a 20 anos, para serem atrizes de filmes pornô amadores.

O documentário Hot Girls Wanted, dirigido por Jill Bauer e Ronna Gradus, acompanha os passos de algumas meninas que querem tentar fazer carreira na indústria pornográfica. O resultado é devastador: as moças tendem a permanecer, no máximo, três meses nos sets de filmagem; para ficarem por mais tempo, optam por gravar os tipos de cenas mais degradantes que, consequentemente, são as que pagam valores mais altos de cachê.

Em uma das cenas nos bastidores de uma gravação, o diretor instrui a atriz Rachel Bernard a não reagir quando o ator mais velho com quem contracena investir sobre ela. “É como se você nunca realmente tivesse consentido, entende?”, explica. “Nossa, me sinto todo predador”, afirma o ator. Bernard só se manifesta quando fica a sós com os documentaristas: “Eu odiei tudo aquilo. Não tem nada de sensual no que fizemos”, confessa, nervosa.

A partir da busca por “teen” em sites de pornografia é possível ainda encontrar vídeos de atrizes adultas utilizando roupas e acessórios infantis e juvenis. Entre os resultados há desde mulheres agindo de forma inocente em uniformes colegiais até outras usando chupeta e imitando o comportamento de bebês.

No artigo “Poder, Mickey Mouse e a Infantilização de Mulheres”, a socióloga Lisa Wade, do Occidental College (EUA), afirma que vivemos numa cultura imperativa na qual as mulheres têm que incorporar tanto a sensualidade quanto a fofura. “A sexualização de meninas e a infantilização de mulheres adultas são dois lados da mesma moeda. Ambos nos dizem que deveríamos achar a juventude, a inexperiência e a ingenuidade sensuais nas mulheres”, escreve.

Um estudo realizado por psicólogos da Universidade do Texas em Austin, nos Estados Unidos, sugere que quanto mais as meninas são expostas à imagens sexualizadas de mulheres na mídia, mais acreditam que precisam ser sensuais para conseguirem ser valorizadas. Ao analisar o comportamento de meninas com idades entre 10 e 15 anos, os pesquisadores descobriram ainda que o contato com a hipersexualização faz com que as jovens tenham baixa autoestima, principalmente no que diz respeito aos seus próprios corpos.

Nada de fiu fiu

Quando o primeiro episódio da versão brasileira do MasterChef Jr. foi ao ar, a  internet entrou em polvorosa. Não só porque o reality show é um dos mais assistidos em duas telas — em que se acompanha pela televisão e pelas redes sociais —, mas pela repercussão que teve online. Percebeu-se que vários dos comentários sobre o programa eram relacionados com uma participante de 12 anos. Ou melhor, com a aparência dela. “Sobre essa participante: se tiver consenso, é pedofilia?”, escreveu um dos usuários.

O coletivo feminista Think Olga prontamente se posicionou contra esses comentários, reforçando o fato de a participante ser uma criança. Assim nasceu a campanha #primeiroassédio, em que as mulheres foram incentivadas a compartilhar a história da primeira vez em que foram vítimas de assédio. “Queríamos mostrar o quanto o assédio é comum, e a reação que isso gerou só comprova que tínhamos razão: foram 82 mil tweets mencionando a campanha em quatro dias. Ficamos impressionadas com a quantidade de compartilhamentos, mas não surpresas”, revela Luíse Bello, gerente de conteúdo do Think Olga. “O assédio é extremamente comum e normatizado, e ainda é uma conversa muito recente no Brasil e no mundo.”

Entre os compartilhamentos é possível encontrar casos que retratam diferentes tipos de assédio. Há a história da mulher que, quando tinha 7 anos, percebeu que um homem se masturbava enquanto a assistia brincar na rua com as amigas; a da mulher que, aos 5 anos, sofreu um assédio tão sério que não conseguiu nem escrever sobre o que se passou sem passar mal; e há o caso de Kelli, a moça do início desta matéria que, até a campanha do Think Olga, nunca tinha comentado sobre o ocorrido com ninguém. “Eu quis mostrar o que aconteceu comigo; todas nós passamos por esse tipo de coisa e a gente tem que divulgar esses casos. A erotização do corpo das meninas existe e é um absurdo”, diz. “Quando as mulheres começaram a ver que tinha muita gente compartilhando histórias de assédio e abuso na infância, perceberam que a culpa não era delas e que não eram as únicas que passaram por situações como aquelas”, explica Isadora Cabral, que atualmente desenvolve uma pesquisa sobre gênero, sexualidade e ciberativismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Cabral acredita que os efeitos da campanha, a primeira de vários movimentos de grande repercussão voltados para os direitos da menina e da mulher nos últimos meses, não é de curto prazo. “O poder da internet é muito grande. Quando veem essas movimentações nas redes sociais, muitas meninas novas começam a pensar sobre suas próprias experiências. Isso não só cria uma nova leva de meninas mais conscientes sobre seus direitos como gera discussões e leva os movimentos para fora da internet”, explica. Esse é o melhor caminho para que outras Kellis, Júlias e Maísas aprendam a resistir à pressão criada sobre elas e entendam que suas próprias vozes são a melhor e mais potente forma de romper esse ciclo.

*Com edição de Cristine Kist

FONTE: REVISTA GALILEU

http://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2016/05/novinha-e-apenas-uma-crianca.html

terça-feira, 28 de junho de 2016

PROCEDIMENTOS PARA A PREVENÇÃO DO ABUSO SEXUAL


A prevenção contra este tipo de atos é muito importante e fundamental. Uma boa prevenção pode evitar a consumação de um ato que vai marcar profundamente o desenvolvimento da criança e adolescente e dá origem a danos completamente irreparáveis (ANDREOLI, 1998).
            A educação sexual deve ser integrada na educação cujo objetivo é a pessoa, o respeito, e certamente não separada de tudo isto e reduzida apenas a uma educação sobre a anatomia, por um lado, e a funcionalidade do órgão por outro. Os programas de prevenção do abuso sexual de menores a implementar nas escolas devem inserir-se nos programas de educação sexual ou nos programas de promoção para a saúde (ANDREOLI, 1998).
            O conteúdo foi estruturado de acordo com as três modalidades de prevenção de maus-tratos sugeridas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) das Nações Unidas: primária, secundária e terciária. A prevenção primária tem por objetivo por eliminar ou reduzir os fatores sociais, culturais e ambientais que propiciam os maus-tratos (SANTOS; IPPOLITO, 2004).
            As ações propostas buscam atingir as causas da violência sexual juntamente com a implementação de políticas sociais básicas, destacam-se aqui as ações educativas devem ser dirigidas a toda população, grupos de mães, pais, adolescentes, escolas e igrejas de todos os credos (SANTOS; IPPOLITO, 2004).
            Ações voltadas para a prevenção da violência (SÃO PAULO, 2006):
a)              Intensificar parcerias interinstitucionais e intergovernamentais e com a sociedade civil organizada, para a implantação e implementação de ações articuladas de promoção da cultura da paz, prevenção da violência, assistência e proteção a adolescentes vítimas de violência.
b)          Fomentar a organização de Espaços Jovens, estimulando a participação comunitária e juvenil.
c)                Estimular a organização de pactos comunitários contra a violência intrafamiliar visando a não-legitimação institucional e social da violência, o empoderamento dos setores mais vulneráveis da comunidade, a valorização do papel comunitário na resolução de conflitos sem violência, acordando metas e valores coletivos.
d)                Reorganizar serviços de assistência às vítimas de violência, com as respectivas referencias e contra referencias.
e)                Garantir a contracepção de emergência e a profilaxia das DST/AIDS em todos os serviços que atendam adolescentes vítimas de violência sexual.
f)                 Garantir o apoio psicológico e social e o direito legal à interrupção da gravidez de adolescentes que sofreram violência sexual, caso seja a sua decisão pessoal. Garantir, também, os direitos daquelas que decidirem levar a gravidez adiante, com acompanhamento especificam e apoio psicológico e social, no pré-natal e no puerpério.
g)                Capacitar as equipes de saúde da família para orientarem as famílias, com ênfase na realização de ações educativas, sobre os fatores intervenientes na violência, para identificarem fatores de risco e para prevenção da violência contra crianças e adolescentes.
h)                Humanizar as práticas terapêuticas no atendimento de adolescentes no pré-natal, parto e nascimento, incentivando a presença dos parceiros nessas ações, para fortalecimento do vínculo da mãe e/ou pai com o bebê, como medida preventiva contra violência intrafamiliar.
i)                 Esclarecer e fortalecer como dever profissional a denúncia da violência, cabendo lembrar que esta é obrigatória por parte do serviço de saúde e que deve ser encaminhada às Varas de Infância e Juventude e/ou Conselhos Tutelares.
            A escola, por ser instituição que ocupa lugar privilegiado na rede de atenção à criança e ao adolescente, deve assumir papel de protagonista na prevenção da violência sexual contra crianças e adolescentes (SÃO PAULO, 2006).
            Dessa maneira, os educadores deverão ser informados sobre as modalidades de violência contra crianças e adolescentes, serão apresentados alguns dados estatísticos e um quadro sobre mitos e as verdades relacionadas com a violência sexual, com o propósito de desmitificar alguns tabus sobre o tema (SÃO PAULO, 2006).
            A prevenção secundária tem vista a identificação precoce de crianças em “situação de risco”, impedindo que atos da violência aconteçam e/ou se repitam. As ações desenvolvidas devem incidir sobre maus-tratos já existentes (SÃO PAULO, 2006).
            Os educadores poderão desenvolver sua capacidade de reconhecer indícios de abuso em crianças, preparando-se, assim, para interromper o ciclo de violência sexual. Informações e pistas transmitidas contribuirão para educar o olhar dos educados para identificar sinais de abuso que não deixam marcas, bem como para aperfeiçoar suas habilidades de escuta e sua capacidade de abordar temática tão delicada e penosa para as próprias crianças (SÃO PAULO, 2006).
            A notificação das ocorrências de abuso às autoridades competentes pode representar o fim do “pacto do silêncio”, o fim do pesadelo de crianças e adolescentes, assim como o fim da impunidade de agressores (SÃO PAULO, 2006).
            A prevenção terciária, que tem como objetivo o acompanhamento integral da vítima e do agressor. Diante do fato consumado, deve-se trabalhar para que o ato não se repita. As ações devem priorizar o imediato encaminhamento da criança/adolescente ao serviço educacional, médico, psicológica, jurídico-social. Isso é fundamental para diminuir as sequelas do abuso sexual no cotidiano da criança e do adolescente e evitar que se tornem abusadores quando adultos (SÃO PAULO, 2006).
            Simultaneamente, devem-se desenvolver ações que visem a responsabilização do abusador e assistência a lhe ser prestada, contribuindo para quebrar o ciclo de impunidade e, consequentemente, o ciclo do abuso sexual (SÃO PAULO, 2006).
            Para facilitar o trabalho de notificação sugere-se que cada escola entre em contato com o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, elabore catálogo com endereços dos órgãos competentes para encaminhamento das denúncias, e dos serviços de atendimento existentes nos estados e municípios (SANTOS; IPPOLITO, 2004).

FONTE: DIVULGA ESCRITOR


http://www.divulgaescritor.com/products/procedimentos-para-a-prevencao-do-abuso-sexual-por-fabiana-juvencio1/

quinta-feira, 9 de junho de 2016

METADE DAS CRIANÇAS DO MUNDO SOFREU VIOLÊNCIA FÍSICA OU SEXUAL EM 2015

Mais de um bilhão de meninos e meninas, o que representa metade de todas as crianças do mundo, sofreram alguma agressão física, psicológica ou sexual ao longo de 2015, afirma a representante especial do secretário-geral da ONU sobre Violência contra Crianças, Marta Santos Pais.


METADE DAS CRIANÇAS DO MUNDO SOFREU VIOLÊNCIA FÍSICA OU SEXUAL EM 2015

Mais de um bilhão de meninos e meninas, o que representa metade de todas as crianças do mundo, sofreram alguma agressão física, psicológica ou sexual ao longo de 2015, afirma a representante especial do secretário-geral da ONU sobre Violência contra Crianças, Marta Santos Pais.
A especialista ressalta que, embora o assunto seja mais discutido hoje do que há dez anos, o cenário atual não melhorou na última década. Em 2006, as Nações Unidas divulgaram um estudo global sobre esse tema, alertando sobre o alto número de crianças violentadas. De acordo com Marta, a situação em 2015 foi tão lamentável quanto há dez anos.
Em entrevista ao Centro de Notícias da ONU, ela contou que, no ano passado, mais de 1 bilhão de crianças entre 2 e 17 anos sofreram algum abuso e que as taxas de homicídio afetam os pequenos de forma "arrasadora", já que eles representam 8% das vítimas globais.
Outro assunto abordado pela representante foi o tráfico humano. Em algumas regiões, mais de 60% das vítimas são crianças. Segundo ela, existe um número maior de crianças sendo traficadas como consequência das novas tecnologias, por isso, Marta alerta sobre os riscos de predadores sexuais e do cyberbullying.
Ela destaca que o total de imagens on-line depreciando crianças cresce de forma dramática: na última década, o total de fotos na internet de abuso sexual de menores aumentou mais de 1.500%. Mais de 80% das imagens são de crianças com menos de 10 anos e várias de crianças de apenas 2 anos.
A representante da ONU pondera que a internet fornece oportunidade para as crianças aprenderem sobre seus direitos, mas considera fundamental ensiná-las sobre o risco de se tornarem vítimas de violência, de abuso sexual ou de humilhação.
Segundo Marta Santos Pais, mais de 50 países têm leis que proíbem a violência contra menores, mas para a especialista, isso não é suficiente, já que menos de 10% das crianças do mundo são protegidas por lei.

FONTE: ANDI

http://www.andi.org.br/clipping/cada-dez-minutos-uma-crianca-e-vitima-de-violencia-no-brasil

CASO ANA LÍDIA COMPLETA 42 ANOS CERCADO DE MISTÉRIO E IMPUNIDADE

Às 13h50 de uma terça-feira típica da seca que castiga Brasília, começou a ser escrita uma história de terror que comoveu, revoltou e, até hoje, mexe com os moradores da capital: o brutal assassinato de Ana Lídia Braga, 7 anos, que completa hoje 40 anos. Em quatro décadas, foram muitas perguntas, muitas investigações, muitos julgamentos e nenhuma condenação. Deixada pelos pais na escola Madre Carmen Salles, na 604 Norte, a menina não chegou a entrar no colégio. Foi abordada por um homem alto, loiro, de cabelos compridos, que vestia blusa branca e calça verde-oliva. Na companhia dele, deixou o pátio da escola pela última vez.


Em 11 de setembro de 1973, a morte brutal de uma menina de 7 anos abalou para sempre o clima de tranquilidade que pairava sobre Brasília. Apesar da grande repercussão, ninguém foi punido pelo hediondo assassinato

Vinte e duas horas depois de começado o pesadelo, o corpo da menina foi encontrado em um matagal próximo à Universidade de Brasília. Nua, com os cabelos louros cortados de forma irregular, bem rente ao couro cabeludo, e violentada, Ana Lídia teve a vida interrompida e atirada em um cova rasa no cerrado. “A polícia só descansará quando o responsável pela morte da menor for localizado e preso”, disse o então secretário de Segurança Pública do DF, coronel Aimé Laimaison em 12 de setembro de 1973. O que poderia ser o ponto final de um trágico episódio tornou-se, na verdade, o início de um caso que, até hoje, segue sem solução.

Nos anos 1970, Brasília ainda mantinha ares de cidade pequena. O Plano Piloto já era reduto da classe média e abrigava essencialmente servidores públicos. É nesse contexto, quase bucólico, em que a família Braga estava inserida. Eloyza Rossi Braga e Álvaro Braga eram funcionários do Departamento de Serviço de Pessoal (Dasp). Viviam no Bloco 40 (hoje Bloco B) da 405 Norte e, além da pequena Ana Lídia, eram pais de Álvaro Henrique Braga, à época com 18 anos, e Cristina Elizabeth Braga, então com 20. A filha temporã era o xodó de todos. Muito protegida, não brincava nos pilotis, não tinha amiguinhos nem saía de casa desacompanhada.

Aos 7 anos, Ana Lídia cursava, pela manhã, a 1ª série do ensino fundamental na escola religiosa que ficava próximo de casa. No turno vespertino, também no Carmen Salles, tinha aulas de reforço — às terças e sextas-feiras — e de piano — às segundas, quartas e quintas-feiras. Como sempre trabalhou, Eloyza contava com o auxílio de uma empregada. Rosa da Conceição Santana estava com a família havia 20 anos. Naquele 11 de setembro, antes de seguirem para o trabalho, os pais levaram a menina para a escola. 

Por volta das 16h30, como de costume, Rosa foi buscá-la a pé. Ao procurar a menina, recebeu a notícia de que ela não havia comparecido ao colégio naquela tarde. Preocupada, Irmã Celina, diretora da instituição, ligou para a mãe da aluna a fim de certificar-se de que ela fora deixada no colégio. Com a confirmação de Eloyza, o mundo da família Braga começou a desmoronar.

Às 12h do dia seguinte, agentes da Polícia Civil acharam o corpo de Ana Lídia em um terreno da UnB. Próximo ao local em que ela foi enterrada, havia duas camisinhas. O laudo do Instituto de Medicina de Legal atestou que a morte se deu por asfixia, provavelmente provocada por sufocação, entre às 4h e às 6h do dia 12 de setembro. Havia ainda manchas roxas e escoriações em várias partes do corpo. O exame revelou ainda um dos detalhes mais sinistros do crime: depois de morta, a criança foi estuprada.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/cidades/2013/09/11/interna_cidadesdf,387506/caso-ana-lidia-completa-40-anos-cercado-de-misterio-e-impunidade.shtml

EXPLORAÇÃO SEXUAL DE CRIANÇAS E ADOLESCENTES, UM CRIME HEDIONDO

Dia 18 de maio é um dia de luto e de luta. A data marca um acontecimento trágico, no ano de 1973, um crime bárbaro cometido contra uma menina de apenas 8 anos, Araceli, que foi sequestrada, drogada, violentada e assassinada por jovens de classe média alta da sociedade capixaba. O crime ficou impune e causa revolta até os dias atuais. E o que é pior, não raro, se repete, nos mais afastados rincões do país ou nas grandes cidades, contra milhares de meninas e também meninos.

Segundo dados do UNICEF, relativos ao ano 2000, no Brasil, estimava-se um total de 500 mil crianças e adolescentes explorados sexualmente, em sua maioria meninas, pobres e negras. Esse número corresponde a 2 milhões anuais no mundo. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) afirma que 20% da exploração sexual infantil ocorre nos países da América Latina e Caribe. Esses números tendem a se intensificar em períodos de grandes eventos, como no ano em curso que acontecem as Olimpíadas, no Brasil, com o aumento dos movimentos migratórios e intensificação do turismo.
Desde o ano 2014, a exploração sexual comercial de crianças e adolescentes é considerada crime hediondo, previsto na Lei 8.072/1990, como tal a prática de favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança ou adolescente ou de vulnerável (inciso VIII do artigo 1º, inserido pela Lei nº 12.978/2014). A pena de 4 a 10 anos de prisão (artigo 218-B do Código Penal) é cumprida em regime fechado e não admite fiança. Pode estar associada ao crime de tráfico de pessoas, pornografia, turismo sexual e redes de prostituição.
A exploração sexual comercial é caracterizada pela utilização de crianças e adolescentes em atividades sexuais remuneradas, mediante pagamento em dinheiro, favores, objetos ou qualquer outra forma de monetarização da relação entre explorador ou agenciador e a vítima. É muito comum a utilização de crianças para a prática de sexo em troca, por exemplo, de fornecimento de substâncias entorpecentes a famílias dependentes químicas, para consumo próprio, ou fornecimento de alimentação em troca dos serviços sexuais.
Trata-se de forma perversa e repulsiva de violência contra crianças e adolescentes, que expressa uma violência de gênero e geracional, em que adultos se colocam em posição superior, exigindo a prática de sexo com pessoas vulneráveis, em peculiar condição de desenvolvimento, mediante coação econômica. O explorador, além de se valer da situação de vulnerabilidade da vítima, também se apoia na sua necessidade econômica.
Não apenas os abusadores/exploradores diretos respondem pelo crime de exploração sexual, mas também todas aquelas pessoas ou estabelecimentos que facilitam, transportam, hospedam, de alguma forma concorrem ou contribuem para o cometimento da violência sexual contra crianças e adolescentes.
A prática caracteriza uma das piores formas de trabalho infantil, prevista na Convenção 182 da Organização Internacional do Trabalho, ratificada pelo Brasil, regulamentada pelo Decreto 6.481/2008, ensejando além da responsabilização penal dos exploradores também a reponsabilidade civil-trabalhista pelos danos causados à coletividade, à infância e também às vítimas.
O Ministério Público do Trabalho atua em tais casos de forma repressiva, ajuizando ações civis públicas, objetivando o pagamento de indenizações por dano moral coletivo. Decisão recente no AIRR-182400-69.2007.5.13.0027, em ação ajuizada pelo MPT-PB, proferida pela 1ª Turma do TST, reconheceu a competência material da Justiça do Trabalho para julgar casos de exploração sexual comercial, ao considerar a relação jurídica delineada nos autos como relação de trabalho ilícita, à luz da legislação nacional e internacional sobre o tema, com base no princípio da proteção integral da criança e do adolescente.
As ações preventivas são imprescindíveis para o enfrentamento desta grave violação de direitos humanos de crianças e adolescentes, que traz consequências traumáticas do ponto de vista psicológico, prejuízos físicos e danos sociais às vítimas. Portanto, necessário o envolvimento de toda a sociedade no combate a essa forma perversa de violência contra a infância, a dignidade e a vida. Não podemos desviar o olhar. A proteção integral das crianças e adolescentes é dever de todos.
*Elisiane dos Santos é procuradora do Ministério Público do Trabalho de (MPT/SP) e Coordenadora Nacional da Coordinfância (Coordenadoria Nacional de Combate à Exploração do Trabalho da Criança e do Adolescente)
FONTE: Promenino Fundação Telefônica.

Crédito da foto: Bruce Stanfield/Shutterstock

http://www.promenino.org.br/noticias/colunistas/exploracao-sexual-de-criancas-um-crime-hediondo