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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

MAIORES VÍTIMAS DE ABUSO SEXUAL, ADOLESCENTES TÊM DIFICULDADE DE DENUNCIAR AGRESSORES



"Não conte para a mamãe", dizia o pai da escritora inglesa Toni Maguire.
O pedido, no entanto, não era sobre uma travessura ou uma sobremesa exagerada --ele abusou sexualmente da filha por oito anos, talvez com consentimento da mãe.

A história está no livro que Toni lança agora, com título igual à frase do pai (Bertrand Brasil, R$ 34, 308 págs.). E é um entre milhares de casos, no Brasil e no mundo.




Abuso sexual é crime e assim deve ser tratado. E são justamente os adolescentes suas vítimas mais frequentes.
Geralmente confundido com estupro ou atentado violento ao pudor, o abuso tem particularidades.

Entre as situações que o configuram está incesto (relação sexual entre membros da mesma família), masturbação forçada, carícias com intenções sexuais, exibicionismo e sedução com presentes.

Em torno disso tudo, a tortura psicológica e, às vezes, o uso da força ou de algum tipo de poder.

De acordo com um levantamento deste ano da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, nos último anos triplicou o número de adolescentes que sofreram abuso e foram atendidos pelo Núcleo de Violência Sexual e Aborto Previsto em Lei do Hospital Pérola Byington, referência nacional no assunto.

Cerca de metade das vítimas tem entre 12 e 17 anos, totalizando mais de 750 casos em 2011 --a conta também inclui garotos.

Enquanto adultos são geralmente abordados por desconhecidos em lugares públicos, no trajeto para o trabalho ou para a faculdade, crianças e adolescentes costumam ser violentadas no ambiente privado ou familiar e ao longo dos anos.

CRIME E CULPA

"Muitas vezes, elas mantêm um temor reverencial pelo agressor e por isso não revelam o que se passa", afirma a psicóloga Daniela Pedroso, diretora do núcleo do Pérola Byington.

Segundo ela, é comum que haja, além da vergonha, uma espécie de culpa indevida.

"Elas passam por um período agudo de estresse pós-traumático que pode desencadear depressão, ideias de suicídio, dificuldades de relacionamento e uso de drogas. E a pessoa pode se tornar mais vulnerável a outros abusos ao longo da vida."

Mudanças bruscas de comportamento, queda de rendimento escolar e desinteresse em atividades de rotina devem ser observados pelos familiares e amigos.

Para Raquel (os nomes das vítimas são fictícios), 22, que sofreu abuso aos 16 anos, o pesadelo veio do primeiro namorado, quando morava no interior de Minas Gerais.

"Eu era virgem e nunca tinha conversado sobre sexo. Um dia me excedi na bebida e mais tarde acordei completamente desnorteada, nua, com dor e sangrando. Ele estava rindo, como se tudo aquilo fosse normal", relata.

Após anos de confusão mental e prejuízos nos relacionamentos, Raquel procurou ajuda psicológica.

"As pessoas tendem a condenar a mulher. Era como se eu tivesse culpa por ter bebido, e não o homem por ter abusado."

Já Carla, 19, procurou atendimento psicológico com ajuda do namorado, após confidenciar ter sofrido abuso pelo padrasto, dos sete aos 14 anos.

"Ele tinha um ciúme obsessivo por mim e me impedia de ver os amigos. Uma tia até desconfiava, mas o resto da família dizia que ela era louca", conta.

Os abusos aconteciam de madrugada, enquanto a mãe de Carla trabalhava. Ela tinha medo até de dormir.

"Ele me imobilizava, fazia chantagens e ameaças. Uma vez, gritei no meio da noite, mas minha mãe não percebeu. Ou fez de conta que não ouviu, para não admitir o pior. Depois descobri que ela também sofreu o mesmo no passado. Eu sou filha de um estupro."

Em caso de gravidez originada de abuso sexual, a mulher pode optar por um abortamento legal até a 12ª semana de gestação.

"A vítima entra e sai pela porta da frente do hospital, sem sofrer qualquer represália ou preconceito", afirma Daniela Pedroso.

Estatísticas do Pérola Byington apontam que, entre as que engravidaram em decorrência de estupro, 90% optam pelo abortamento legalizado, 9% mantêm o bebê e apenas 1% prefere entregá-lo para adoção.

Abusos contra garotos são mais raros, mas seguem o padrão mais comum: como elas, eles geralmente são vítimas de pessoas próximas.

Em qualquer que seja o caso, ou seja lá quem for o agressor, é preciso força para denunciar à polícia ou à Justiça, que têm medidas capazes de dar amparo e encontrar soluções, além de ajuda médica e psicológica.

ONDE PROCURAR AJUDA SE SOFREU ABUSO SEXUAL

- Disque 100: serviço nacional para denúncias de violência sexual

- Em SP, o hospital Pérola Byington (av. Brigadeiro Luís Antônio, 683, tel. 0/xx/11/ 3248-8000) tem atendimento médico e psicológico especializado

- O Pavas (Programa de Atenção às Vítimas de Abuso Sexual) atende crianças e adolescentes de ambos os sexos e é gratuito. Tel.: 0/xx/11/3061-7726

- O CNRVV (Centro de Referência às Vítimas da Violência) oferece programas e políticas de intervenção. Tel.: 0/xx/11/3866-2730


domingo, 9 de setembro de 2012

MENINAS INDÍGENAS SÃO VÍTIMAS DE REDE DE PEDOFILIA NO ALTO RIO NEGRO (AM)


Esquema aumentou e está mais escancarado no município de São Gabriel da Cachoeira, mas não vem sendo alvo de investigação e punição.



Uma rede de pedofilia vem se consolidando no município de São Gabriel da Cachoeira (a 858 quilômetros de Manaus), no extremo norte do Amazonas, sem que os envolvidos sejam investigados e muito menos punidos. As vítimas são meninas indígenas entre 10 e 16 anos de idade. Pessoas vinculadas a instituições sociais são ameaçadas caso façam as denúncias e as vítimas são coagidas a ficarem caladas.
Nessa semana algumas pessoas ligadas a estas instituições aceitaram falar sobre os casos. Segundo elas, a exploração sexual, antes velada, tem se tornado cada vez mais escancarada. Respaldados pela falta de investigação, os exploradores sexuais e aliciadores não temem ser punidos e continuam praticando o crime contra as meninas.
Em agosto passado, seis meninas indígenas aceitaram prestar depoimento à representação da Polícia Federal em São Gabriel da Cachoeira, município onde 90% de sua população é indígena. O depoimento foi confirmado pelo representante da PF no município, Cláudio César.
O conteúdo das declarações, contudo, não foi revelado à reportagem. Cláudio disse apenas que os depoimentos farão parte de um relatório que ele enviará para a promotoria de São Gabriel da Cachoeira e para a superintendência da PF, na próxima semana.
A delegada especializada em crimes contra menor, idoso e violência doméstica de São Gabriel da Cachoeira, Ivone Rocha, confirmou a existência dessa rede, mas alegou que o órgão não tem estrutura para investigar os casos. A Polícia Civil tem apenas um investigador no município. Ela também informou que as meninas vítimas da violência sexual não costumam denunciar os suspeitos.
Comércio 

O comércio do sexo com crianças e adolescentes tem à frente um pequeno grupo de comerciantes “com dinheiro” que se instalou há algum tempo no município e funcionários públicos. O alvo preferido da exploração sexual são meninas virgens. Em muitas ocasiões, as meninas também acabam sendo vítimas do tráfico de drogas.

“Essa rede de pedofilia, como a gente chama, existe há muito tempo, mas aumenta a cada ano, a cada mês. Está se alastrando. Está a olho nu. Antes, estes homens pegavam meninas de 14, 16 anos. Agora, pegam meninas de 12, 11 e até 10 anos. São meninas de famílias muito pobres que vêm de suas comunidades. Sem condições financeiras, elas acabam sendo vítimas desses comerciantes”, disse uma conselheira tutelar que prefere ficar no anonimato.
Embora a abordagem dessas garotas ocorra em casas noturnas, bares e até portas de escola, o local que acabou se tornando uma espécie de ponto de encontro é a rua Rui Barbosa, no bairro Miguel Quirino, apontado como o mais pobre do município.  
“Tem menina mais velha que leva as irmãs mais novas. A menorzinha ganha apenas um biscoito, uma fruta. A maior ganha uns R$ 50. Soubemos de casos horríveis, como a menina que é levada para cinco, seis pessoas”, disse ela.
Descaso

A prática da exploração sexual de menores não é recente e já foi denunciada em outras ocasiões, segundo a conselheira. “As pessoas sabem que existem. Já denunciamos ao Ministério Público, ao Fórum de Justiça, mas não passa disso. Deixamos até de ir à Polícia Civil porque nada acontece ali. Além do mais, as meninas e as famílias ficam com medo de denunciar. A cidade é muito pequena”, disse a conselheira, ela própria bastante receosa em dar esta entrevista por temer a fúria da rede que pratica a exploração sexual.

A presidente do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA), irmã Justina Zanato, que acompanha algumas meninas envolvidas nesta rede, disse que já ouviu uma criança de 10 anos dizer que os homens oferecem produtos como iogurte, chocolate e frutas como pêra e uva.
Medo

Irmã Justina diz que tentativas de denúncias esbarram no receio das autoridades públicas em investigar os casos. “A maioria dessas crianças e jovens entra nessa rede por falta de algum incentivo maior dentro da família ou por fome mesmo. Mas quando a gente denuncia, parece que todos têm medo. É como se alguém estivesse freando as investigações e a punição”, contou.

Medo de denunciar, omissão das autoridades públicas e ameaças explícitas são as principais causas da perpetuação e do crescimento da prática de exploração sexual, segundo uma psicóloga que atua em São Gabriel da Cachoeira e que acompanha estes casos há alguns anos.
“Todo mundo sabe quem são as pessoas. E são pessoas poderosas. Quando se faz uma tentativa de denunciar, acontecem as ameaças”, diz ela.
A psicóloga fez uma pesquisa que traçou o perfil das meninas vítimas da exploração. São, na maioria, garotas indígenas, pobres e vulneráveis socialmente que vêm das aldeias em busca de melhores condições de vida. Os praticantes são em geral homens maduros, comerciantes “estabelecidos  na cidade” que raramente vão em festas e que, aparentemente, possuem uma conduta ilibada.
Ação

Uma funcionária da Secretaria Estadual de Povos Indígenas (Seind), indígena da etnia baré nascida no município de São Gabriel da Cachoeira e que também teme ter seu nome divulgado, confirmou a existência desta rede e do crescimento dela. Afirmou ainda que uma tentativa de discutir o assunto foi feita há algum tempo, mas nenhuma ação efetiva foi adiante.
“A gente sabe que existe, mas precisa de provas consistentes. Deveria haver uma ação conjunta entre a Polícia Civil, a Polícia Federal, o Conselho Tutelar e o Ministério Público Federal. A Funai vai de mal a pior, a lei deixa de fazer a parte dela. E ninguém é punido”, disse a indígena.
Falta estrutura

A delegada especializada em crimes contra criança e adolescente, idoso e violência doméstica de São Gabriel da Cachoeira, Ivone Rocha, disse que “sim, existe” uma rede de pedofilia naquele município, mas que é preciso a população se “conscientizar” e começar a denunciar a prática.
Questionada se a Polícia Civil poderia, a partir de denúncias já realizadas, e iniciar uma investigação mais aprofundada, ela afirmou que a instituição sofre com falta de estrutura para tal ação.
“Estou lá há um ano. As meninas não estão dispostas a denunciar. Muitas vezes inocentam o cidadão. Negam tudo. Mas algumas denúncias já estão sendo sim  apuradas, são casos mais recentes”, disse.
Conforme Ivone, além dela há apenas um policial civil para fazer o trabalho de investigação na cidade. “A gente não tem como sair procurando e intimando as pessoas. Antes eu fazia ronda. Havia quatro policiais civis e dois escrivães. Hoje, tenho apenas um investigador e um escrivão. Por isso que é preciso que as pessoas denunciem”, disse.
Miséria

O presidente Federação das Organizações Indígenas da Alto Rio Negro (Foirn), Abrahão França, indígena da etnia baré, afirmou que, de fato, existe uma equipe que comanda essa situação.
“É o pessoal do comércio. O pior é que todos sabem o nome, sabem quem são a própria polícia sabe disso. Mas fica no descaso. Já ouvi dizer que existe até tabela. Se for virgem, vale tanto. A gente sabe que acontece esta situação, mas nunca avançou para denunciar. Isso até o momento. Mas o procurador do MPF está aqui esta semana em São Gabriel da Cachoeira e vamos discutir”, disse.
França afirmou que nos últimos anos este problema se agravou. Um dos motivos é que um 'parente' indígena ganhou a eleição e trouxe muitas expectativas para os que moram no interior distante.
“Muita gente veio para a cidade achando que teria emprego, mas não tem. Quando chega na cidade não tem o que fazer, não tem mais roça e não tem onde morar. Precisa comer, precisa vestir e não tem onde buscar o sustento. Aí aparecem esses homens que comandam e fazem isso”, afirmou.
Indígena

Localizado à margem do rio Negro, São Gabriel da Cachoeira é considerado o município mais indígena do Brasil. Sua região é habitada por mais de 22 etnias diferentes.
No município, além do português, outras três línguas são consideradas oficiais: tukano, nheegantu e baniwa. Sua localização geográfica é considerada estratégica, pois faz fronteira com Colômbia, Venezuela e Peru. A área também é rica em minérios, como ouro e nióbio.
Estupro

Um caso de violência sexual contra menores que chocou o conselho tutelar de São Gabriel da Cachoeira é o de uma menina indígena de 13 anos que foi estuprada no dia 8 de junho deste ano por um homem identificado com Léo. A menina, de etnia tukano e baré, que está grávida, tem um grau menor de retardo mental.
No início de agosto, ela esteve em Manaus para fazer ultrassom (não existe este serviço em São Gabriel) e sua mãe aproveitou para fazer um boletim de ocorrência na Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DEPCA).
Pelo relato, a menina estava indo para a escola quando foi abordada por um motorista de táxi lotação, que a estuprou em um ramal. Ela já voltou ao município e o caso foi encaminhado para a Delegacia do Interior, segundo informações da DEPCA.
Sobre este caso, a delegada Ivone Rocha afirmou que, até o último dia 21 de agosto, quando estava no município, ainda não tinha recebido o boletim para dar encaminhamento às investigações e pedir a prisão preventiva do suspeito. Ivone está em Manaus, de licença médica, e retorna para São Gabriel da Cachoeira na próxima semana.
Legislação 

A legislação que pune abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes encontra-se na Constituição Federal, no Código Penal e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
Na Constituição, encontra-se no artigo 227, parágrafo 4º. “A lei punirá severamente o abuso, a violência e a exploração sexual da criança e do adolescente”.
No ECA, os tipos de penas estão mais detalhadas. Elas são aplicadas conforme a gravidade do crime.
No Código Penal, abuso, violência e exploração sexual de crianças e adolescentes são enquadrados penalmente como corrupção de menores (art. 218) e atentado violento ao pudor (art.214 ), caracterizado por violência física ou grave ameaça.

http://acritica.uol.com.br/amazonia/Manaus-Amazonas-Amazonia-Prostiuicao_Infanto_Juvenil-Sao_Gabriel_da_Cachoeira-Indios-Meninas-Alto-Rio-Negro-AM_0_770323003.html