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domingo, 28 de janeiro de 2018

HOMENS ABUSADOS SEXUALMENTE QUEBRAM SILÊNCIO DE DÉCADAS COM AJUDA DE ASSOCIAÇÃO


A "Quebrar o Silêncio" foi fundada a 19 de janeiro do ano passado por Ângelo Fernandes. Já recebeu 84 pedidos de ajuda



Em apenas um ano, desde que foi criada para ajudar homens abusados sexualmente, a associação "Quebrar o Silêncio" recebeu 84 pedidos. A maioria foi vítima durante a infância, mas só teve coragem de denunciar o crime décadas mais tarde.

"Quebrar o Silêncio" foi fundada a 19 de janeiro do ano passado por Ângelo Fernandes para ajudar homens que, como ele, foram vítimas de abuso sexual. Desde então, e em média, todas as semanas recebe mais do que um pedido de ajuda.
Em entrevista à agência Lusa, Ângelo Fernandes contou que foi abusado por um amigo da família quando tinha 11 anos, um segredo que só teve coragem de revelar aos 33 anos quando vivia no Reino Unido e encontrou ajuda numa associação que apoiava homens vítimas destes abusos.
Quando regressou a Portugal decidiu fundar a associação para ajudar outros homens que passaram pelo mesmo problema a partilharem o crime que viveram.
"Até agora, tivemos 84 pessoas que nos procuraram, a maioria homens, mas também familiares ou amigos que acabam também por ser afetados pelo abuso e precisam de algum apoio ou de saber como podem apoiar" as vítimas.
A maioria (80%) procurou ajuda pela primeira vez. "São homens que, em média, passaram 25 anos em silêncio", disse Ângelo Fernandes, explicando que "foram abusados sexualmente na infância" e só conseguiram pedir ajuda já adultos.
A idade média destes homens é de 36 anos, tendo o mais novo 22 e o mais velho 65. Na maioria dos casos, o abuso ocorreu entre os zero e os 11 anos e teve uma duração média de entre três e quatro anos, sendo que há casos que duraram dez ou mais anos.
Segundo Ângelo Fernandes, os longos anos de silêncio devem-se a "uma vergonha imensa" das vítimas causada pelas "estratégias de manipulação" dos agressores, que as fazem acreditar que foram responsáveis pelo abuso, porque o deixaram acontecer ou porque não foram capazes de o evitar.
"O peso dos valores tradicionais da masculinidade" que dizem que o homem tem que ser forte ou que não pode chorar também contribui para que "muitos homens não falem, não partilhem e não procurem apoio".
Há ainda outros fatores, como o facto de muitos homens acreditarem que o abuso sexual só afeta mulheres e que eles são "o único caso" e a ideia de que "os homens são sempre os agressores, nunca vítimas".
"Há uma certa resistência em reconhecer que os homens também são afetados pelo abuso sexual, quando na verdade um em cada seis homens é vítima de abuso antes dos 18 anos", elucidou, sublinhando que todas estas situações fazem com que apenas 16% reconheçam que foram vítimas.
Outra "ideia errada" prende-se com as pessoas pensarem que "os agressores são estranhos". Em cerca de 90% dos casos, o agressor conhecia o rapaz ou a criança, porque era familiar ou conhecido da família. "Foi o meu caso", desabafou, contando que o seu agressor era um "amigo da família, uma pessoa de confiança".
Inicialmente, o agressor cria "uma relação de confiança, de amizade, para que a criança se sinta segura. Depois, tal como aconteceu comigo, vão introduzindo o toque e vão sexualizando gradualmente a relação para que a criança não tenha consciência do que está a acontecer" e até se sinta responsabilizada pelo abuso.
"Eu cresci a achar que tinha sido o responsável e que tinha sido eu até a seduzir um homem de 37 anos quando eu tinha apenas 11 anos", comentou o fundador da primeira associação portuguesa com apoio especializado a estas vítimas.
Além do acompanhamento das vítimas, a associação realiza sessões de sensibilização nas escolas, "onde se abordam temas para lá do abuso sexual".
Os próximos desafios passam por uma maior visibilidade da associação para poder "chegar a mais homens". Os que já pediram ajuda dizem que finalmente encontraram um espaço onde puderam partilhar a sua história e onde alguém acreditou no que diziam, explicou, lamentando que ainda exista "uma cultura de responsabilização das vítimas.
Para assinalar o primeiro aniversário, a associação lança hoje um "guia para homens sobreviventes de abuso sexual" e o vídeo "26 anos em silêncio".
FONTE: DN PORTUGAL

https://www.dn.pt/portugal/interior/homens-abusados-sexualmente-quebram-silencio-de-decadas-com-ajuda-de-associacao-9058972.html



segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

BRASIL, O PAÍS DA PEDOFILIA


Dados divulgados pela Polícia Federal, com base em levantamento da ONG Censura, apontam que 76% dos pedófilos do mundo estão no país, onde o crime acontece a cada oito minutos


"Eu tinha dez anos. Minha mãe trabalhava fora e estava sempre viajando. Meu padrasto ficava mais tempo em casa. Ele me criou desde que eu tinha quatro anos. Um dia, invadiu meu quarto, tapou minha boca e me atacou". As lembranças de Andreza, hoje com 30 anos, vêm como um grito tardio de mais uma vítima da pedofilia. A cada 15 segundos uma criança é abusada sexualmente no mundo. No Brasil, o crime se repete a cada oito minutos. As informações foram divulgadas pela Polícia Federal e se agravam com a constatação de que o país concentra 76% dos pedófilos do planeta, além de ser o líder na internet quando o assunto é pornografia infantil.


"Na primeira vez, eu esperei a família se reunir e contei. Tenho uma irmã mais nova e tinha medo que ele fizesse algo com ela também. Mas minha mãe não acreditou. Ele, claro, negou. Ela disse que eu estava inventando, que era coisa da minha cabeça. Foi a brecha para tudo continuar", desabafou. "Ele me abraçava, me beijava e me levava para o quarto. Tirava a minha roupa, tirava a dele, me tocava, se esfregava em mim, passava as partes íntimas dele na minha e se masturbava. Eu tentava escapar, mas ele era muito mais forte. Tentava gritar, mas ele me calava. Sempre dizia que ninguém acreditaria". 

O relato de Andreza se confunde com outros silenciados pelo medo e vividos à sombra da incredulidade. De acordo com a Polícia Federal, na maioria dos casos, o abusador é alguém próximo à vítima, familiares ou vizinhos. Em Pernambuco, somente este ano, foram deflagradas cinco operações de combate em 13 municípios. 

Com a internet e a limitada legislação sobre crimes cibernéticos, a pedofilia ganhou forma de atuação ainda mais difícil de se conter. Começa com uma conversa despretensiosa. Com um clique, a troca de fotos e vídeos está feita. Em apenas um minuto, cresce a estatística. Números que são agravados pela invasão, a cada mês, de cerca de mil novos sites com conteúdo pornográfico infantil.

Pela lei, produzir, reproduzir, dirigir, fotografar, filmar ou registrar cena de sexo explícito ou pornográfica envolvendo criança ou adolescente é crime. Assim como agenciar, facilitar, recrutar, coagir ou intermediar a participação dos menores de idade nas imagens. "O que pouca gente sabe é que trocar esse conteúdo e armazená-lo também são crimes passíveis de prisão. As pessoas não têm noção do que significa pedofilia, mas estamos atuando de forma enfática para inibir esses atos", explica o assessor de comunicação da Superintendência da Polícia Federal em Pernambuco, Giovani Santoro. No mercado negro, a imagem de uma criança nua pode valer R$ 1 mil. Um vídeo com cenas de sexo envolvendo menores de idade pode custar até R$ 10 mil. As cifras e os entraves na legislação favorecem a proliferação dos atos criminosos.

De acordo com a Polícia Federal, os pedófilos gastam, em média, sete minutos para atrair a vítima. No entanto, há casos em que a abordagem acontece em apenas um minuto. "Meninas têm dez vezes mais chances de serem alvos que meninos. E, em 99% dos casos, os pedófilos são homens entre 25 e 35 anos", alerta Giovani Santoro.

Entre 2013 e 2014, 500 pedófilos foram presos no Brasil. Em Pernambuco, no mesmo período, foram instaurados 76 inquéritos com 42 mandados de busca cumpridos em 24 cidades com registro de pornografia infantil. Sete suspeitos foram presos em flagrante. No mapa da PF, os estados com maior número de casos registrados são Brasília, Espírito Santo e Rondônia. Pernambuco aparece em 8º lugar no ranking nacional. "Hoje, quando lembro do que houve, sinto como se fosse uma ferida que nunca cicatriza. Em nenhum momento você vai aceitar ou apagar aquilo. Tem gente que pensa em matar, em morrer, mas eu agradeço a Deus por estar bem. Olho para trás e vejo que consegui superar. Casei, construí a minha família, tenho um filho lindo e sigo em paz", conta Andreza. A mãe e o padrasto permaneceram juntos por 20 anos. O relacionamento acabou em 2014. A família vivia, na época, em Vila Rica, Jaboatão dos Guararapes. A mãe ainda não acredita que ele tenha sido capaz de se aproveitar da filha.

Os números divulgados pela Polícia Federal foram apresentados pelo advogado, ex-deputado federal e um dos membros-fundadores do Partido dos Trabalhadores Luiz Eduardo Greenhalgh à embaixada norte-americana em Brasília e são frutos de pesquisa da ONG Censura. De janeiro de 2006 a outubro de 2012, 40,5% do que foi denunciado na internet abrigava conteúdo pornográfico infantil. Foram 224,6 mil endereços citados, neles, 76% dos acessos eram oriundos do Brasil. Nas publicações, 52% continham crimes contra crianças de nove a 13 anos e 12% contra bebês de até três meses de idade (com fotografias). 

Homens, mulheres, jovens, idosos, ricos, pobres, brancos, negros, todos podem ser criminosos em potencial. Não é possível traçar um perfil para a identificação de pedófilos. A Polícia Federal, no entanto, aponta padrões de comportamento que devem despertar a atenção de pais e responsáveis.

Usualmente, os acusados possuem poucos amigos na mesma faixa etária, costumam ter quartos decorados com motivos infanto-juvenis, passam muito tempo com crianças para conhecer seus gostos e atraí-las, são simpáticos, superprotetores e, vez por outra, tocam a criança "acidentalmente". Também é comum que busquem vítimas com pouca ou nenhuma supervisão dos responsáveis. Costumam frequentar locais como shopping centers, parques e praças, além de áreas próximas a escolas. "Na maioria dos casos, eles não matam quando cometem os abusos. O objetivo é outro", explica o Santoro.

Para não serem identificados, optam por computadores de lan houses, usam perfis falsos e negam a idade, nome e endereço. Em muitos casos, se passam por crianças e adolescentes para se aproximar das vítimas. Usam as informações fornecidas pela própria criança para saber como se apresentar. Para atrair, falam sobre comida, cinema, música e roupas até chegar no assunto "pais" e descobrir o horário em que estão em casa. "Eles abordam temas sexuais de forma sutil e delicada para reduzir a inibição e cativar as vítimas. Falam em uma linguagem mais infantilizada. Perguntam onde fica o computador e se tem alguém vendo a conversa dos dois, demonstram interesse pelos problemas das crianças até convencê-las a ligar a webcam para fotografar e filmar. Chegam até a fazer declarações de amor", esclarece o assessor da PF, lembrando que a ameaça vem em seguida. No intuito de calar as vítimas, dizem que podem divulgar as imagens a qualquer momento caso elas contem o que aconteceu. 


FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/vida-urbana/2015/08/17/interna_vidaurbana,592228/brasil-o-pais-da-pedofilia.shtml#.WdIwdEDx8Fk.facebook


terça-feira, 2 de janeiro de 2018

72% DAS GRÁVIDAS ATÉ 14 ANOS APÓS ESTUPRO FORAM VÍTIMAS DESSE CRIME MAIS DE UMA VEZ, DIZ ESTUDO


O estudo do Ministério da Saúde considerou dados de 2011 a 2016


Ao menos sete em cada dez adolescentes de dez a 14 anos que engravidaram como consequência de crime de estupro foram violentadas em caráter repetitivo e por um familiar ou um parceiro íntimo.
As informações constam em estudo preliminar do Ministério da Saúde a partir de notificações contabilizadas em três bancos de dados da pasta: o Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos, o Sistema de Informações sobre Mortalidade e o Sistema de Informação de Agravos de Notificação. O estudo completo será publicado ainda este mês.

Segundo a pesquisa, conduzida por profissionais do Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e de Promoção da Saúde, do ministério, o país registrou 4.262 casos de estupro em adolescentes e que resultaram em gestações e nascimentos no período entre 2011 e 2016. O número se refere ao chamado estupro de repetição, ou seja, crimes dessa natureza praticados contra a vítima reiteradas vezes, ainda que não pelo mesmo agressor.
Desse total, 1.875 vítimas de estupros repetidos, com idades de dez a 14 anos, deram à luz. Outras 2.387 jovens de 15 a 19 anos, também vítimas de estupro reiterado, tiveram filhos após violência sexual.

Os números

De acordo com o levantamento, entre 2011 e 2016, foram notificados 3.266 estupros de adolescentes de dez a 14 anos que foram mães --o número abarca vítimas de estupros reiterados ou não. Em 68,5% dos casos (2.324), o agressor foi familiar ou parceiro íntimo. Em 72,8% dos casos (1.875), o estupro tinha caráter repetitivo.
Entre as adolescentes de 15 a 19 anos, o número de notificações foi maior: 6.201, 37,7% delas (2.418), com autor na própria família ou parceiro. O percentual de casos reiterados foi menor: 44,1% dos casos (2.387).
Dos bebês nascidos vivos de mães de dez a 14 anos com notificação de estupro entre 2011 a 2016, 53,4% iniciou o exame pré-natal no primeiro trimestre de gestação --quando esse tipo de acompanhamento médico-obstétrico deveria se iniciar ainda antes da concepção e até o pós-parto, em um período de 45 dias após o nascimento do bebê.
Entre as mães adolescentes pesquisadas, a maior parcela delas na faixa de dez a 14 anos reside no Nordeste (37,6%) e no Sudeste (26,3%), é negra (67,5%) e solteira (74,7%). O estudo identificou 23,2% de casadas ou em união estável.
Já entre as mães adolescentes de 15 a 19 anos, residentes especialmente no Sudeste (33,1%) e no Nordeste (32,7%), negras ainda são maioria (63,3%), ainda que o percentual de solteiras seja menor (61,7%), e o de casadas ou em união estável, maior (36,8%).

"Nossa discussão é de saúde pública, não de religião", diz consultora

Para Cheila Marina de Lima, consultora da área técnica de Vigilância de Violências e Acidentes do Ministério da Saúde, e que atuou no levantamento, os números de mães adolescentes que engravidaram após estupros repetidos é chocante.
"O que se vê hoje no Brasil é um movimento de enfraquecimento do direito ao aborto legal. Sabemos que essas meninas não tiveram acesso nem à contracepção de emergência [pílula do dia seguinte, por exemplo] e nem ao aborto legal. A gente precisa voltar a discutir isso com mais vigor. O Estado tem que dar uma resposta mais adequada", considerou.
Na avaliação da consultora, existe atualmente uma discussão conservadora na sociedade que afeta até serviços públicos que deveriam orientar as vítimas de estupro para as situações em que o aborto é a alternativa permitida e/ou indicada ao caso. 
"Nossa discussão é só no âmbito da saúde pública, e não de religião A ou religião B. Mas o que se nota é que até o profissional tem resistência de dar esse tipo de orientação, e eles precisam ser sensibilizados sobre isso. Há também que se fortalecer e instrumentalizar as nossas redes de atenção e de referência a essas adolescentes, além de mobilizarem os profissionais que nelas atuam, pois os serviços de saúde são a grande porta de entrada dessas vítimas de estupro", apontou.
A consultora do Ministério da Saúde, no entanto, ressalva: a rede de atenção à vítima de estupro não é atribuição única da saúde, "mas também dos conselhos tutelares e das delegacias da criança e do adolescente, por exemplo". "É muito doído e muito triste ver que grande parte dessas meninas sofre violência de repetição --imagine a dor de sofrer isso em casa dia a dia sem ter a quem recorrer?"

Faltam delegacias especializadas, diz o Condepe


Integrante do CONDEPE(Conselho Estadual de Direitos da Pessoa Humana) e referência em direitos da infância e juventude, o advogado Ariel de Castro Alves avalia que os dados do estudo demonstram "o quanto as crianças e adolescentes estão desprotegidas".
"Boa parte das violências sexuais ocorre nos ambientes familiares e é praticada nas residências das vítimas e por pessoas que deveriam protegê-las, como pais, padrastos, padrinhos, entre outros. Em razão de a violência ocorrer em ambiente doméstico e da impunidade, é que as situações se tornam repetitivas e reiteradas", definiu.
Alves criticou ainda a falta de delegacias especializadas de proteção de crianças e adolescentes no país. "Inclusive, São Paulo é o único Estado que não tem nenhuma dessas delegacias", observou.
"São necessários centros de referências especializados de apoio às vítimas, com assistência social e psicológica, e também educação sexual nas escolas, visando à prevenção, além do reforço ao Programa Saúde da Família e de centros médicos de referência para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual, inclusive para os casos de aborto legal", completou.
Sobre os casos de meninas de dez a 14 anos casadas ou em união estável elencadas na pesquisa, o representante do Condepe afirmou: "Muitas vezes, as meninas de menos de 14 anos são casadas informalmente ou namoram adultos e têm filhos. Isso demonstra a necessidade de educação, prevenção e atenção social. Não adianta tratar esses casos só no âmbito policial, criminal e judicial".

FONTE: JORNAL FLORIPA

http://www.jornalfloripa.com.br/mundo/noticia.php?id=48602619

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

QUANDO A CASA NÃO É UM LAR

Para muitos, a ideia de um lar com crianças brincando na varanda, sons de gritinhos infantis de alegria e risadas advindas de cócegas é uma recordação de um tempo de plenitude, segurança e amor vivido na infância, mas que, para outros, não passa da descrição de cenas de filmes ou ações que acontecem apenas na “casa ao lado”.


Conviver com uma mente que, ao relembrar a infância, remete apenas a uma casa, sentimentos de vazio, medo, culpa, insegurança e abandono afetivo é a realidade de muitos adultos que sofreram silenciosamente a violência sexual, moral, física e/ou psicológica quando pequenos.
É na infância que formamos a visão de nós mesmos. Também é na infância que construímos algo tão grande – a autoestima. Quando ainda somos pequenininhos, instalamos os fundamentos do que existe de mais profundo no ser humano: o EU. Existem alguns fatores que são considerados essenciais na formação do que autores como Beck (2013) chama de crenças centrais ou pessoais.
Experiências de violência interferirão no desenvolvimento saudável da mente, da cognição, do eu, enfim das crenças centrais, pois quanto mais cedo a violência acontecer, mais devastador será para o desenvolvimento do eu, da autoimagem, da autoestima, já que a criança ainda não tem independência emocional e/ou maturidade plena para dar seu consentimento informado.
Em especial, na violência sexual, decorrem consequências consideradas de curto e longo prazos. As consequências de curto prazo manifestam-se no decorrer dos dois anos subsequentes ao abuso, ocasionando alterações nas esferas física, psicológica e social, tais como: distúrbios do sono, medo e dificuldades escolares. Entretanto, a longo prazo fobias, pânico, personalidade antissocial, depressão com ideário suicida, tentativa ou suicídio, isolamento, sentimentos de estigmatização, ansiedade, transtornos alimentares, tensão, dificuldades de relacionamento com pessoas do sexo do agressor, distúrbios sexuais, drogadição e alcoolismo, além de reedição da violência, são fortemente observados.
O agressor não possui a capacidade de cuidar e perceber as necessidades das vítimas, e a pior forma de violência (se é que existe uma forma que seja pior) é a sofrida dentro de casa, diretamente de seus pais, companheiros dos pais, parentes, responsáveis ou pessoas conhecidas. Para Foucault (1976), a violência distingue-se por uma relação de forças desiguais, configurando assim uma relação de poder onde o mais forte subjuga, explora e domina o mais fraco. No caso de crianças, a coerção física ou psicológica acontece em função de sua imaturidade biopsíquica, já que é um ser humano em processo de desenvolvimento, não possuindo condições para compreender ou mesmo evitar sujeitar-se a uma relação de dominação como é o caso da violência sexual.
Segundo Kaplan e Sadock (1990), as consequências do abuso sexual para a criança abarcam aspectos físicos, psicológicos, sexuais e sociais, sendo que seus efeitos físicos e psicológicos podem ser devastadores e perpétuos. Para Furniss (1993) e Knutson (1995), os fatores que influenciam o dano psicológico ou a gravidade do abuso sexual variam de acordo com a idade da criança no início do abuso, a duração do abuso, o grau de violência, a diferença de idade entre a pessoa que cometeu o abuso e a vítima, a importância da relação entre abusador e vítima. Entretanto, apesar desses fatores, algo único a todas as vítimas é a percepção de si que se formará a partir da violência vivenciada. A visão que a vítima tem de si mesma se relaciona com a crença central construída.
As crenças são chamadas de centrais por possuírem características disfuncionais, absolutistas, generalizadas e cristalizadas. São regras globais e absolutas sobre si mesmo, os outros, o mundo e o futuro. São os valores, as ideias e os conceitos que o indivíduo possui, os mais enraizados e fundamentais acerca de si mesmo, das pessoas e do mundo. Podem permanecer latentes todo o tempo e ainda ser ativadas nos transtornos emocionais.
É através das crenças centrais que o mundo é interpretado. Não importa a situação que se apresente ao indivíduo, ele sempre pensará e interpretará consoante com suas crenças. A interpretação que cada um faz do mesmo fato pode ser comparada a um par de óculos adquirido ao nascer. Os óculos possuem características específicas, uma cor decorrente de aspectos genéticos/biológicos, que podem ser representadas por nossas tendências inatas, nosso temperamento, mas com o passar dos anos, ele vai ficando embaçado, arranhado, devido a vivências com os pais, professores, amigos e a sociedade em geral. Quando um ser humano passa pela terrível experiência da violência, em todas as suas formas, seja física, psicológica, sexual e a negligência, esses óculos ficam fortemente fragilizados e corroídos.
A fragilidade ocorrerá em decorrência da formação de crenças centrais disfuncionais, isto é, da visão desadaptativa que a vítima de violência desenvolverá a respeito de si. A visão que for desenvolvida sobre si influenciará as emoções e os comportamentos, e o modo como o indivíduo age afetará profundamente padrões de pensamentos e emoções, confirmando que “os homens não se perturbam pelas coisas que acontecem, mas sim pelas opiniões das coisas” (Epíteto – século I). O que importa para a pessoa são os “seus óculos”, a maneira como cada um percebe uma situação vivida.
Dessa forma, todos realizam uma avaliação cognitiva. As situações são avaliadas conforme a cognição que se tem, a crença central de cada um. Pessoas vítimas de violência tendem a formar crenças de desvalor, desamor e desamparo. As crenças de desamor são aquelas expressas por um olhar para si como indesejável, incapaz de ser gostado e amado, sem atrativo algum, imperfeito, rejeitado, abandonado e sozinho. As crenças de desvalor são expressas por aquelas pessoas que se percebem como incompetentes, inadequadas, ineficientes, falhas, defeituosas, enganadoras, fracassadas, sem valor algum, e por fim as crenças de desamparo estão presentes em pessoas que se veem como impotentes, frágeis, vulneráveis, carentes, desamparadas, necessitadas. A violência normalmente ocasiona o desenvolvimento destas crenças: desvalor, desamor e desamparo.
Quando as crenças são ativadas por alguma situação, o processamento de informação torna-se tendencioso no sentido de extrair da realidade apenas as informações que confirmem a crença disfuncional, negligenciando ou minimizando as informações que possam desconfirmar as evidências contrárias. Um exemplo disso pode ser ilustrado na seguinte situação: imagine que uma pessoa possui uma crença de desamor que é acionada com o fato de seu amigo não ter ido ao seu aniversário. Logo, passa em sua cabeça: “Meu amigo não gosta tanto de mim como eu gosto dele. Caso contrário, ele teria vindo”. Dessa forma, o fato do amigo não ter ido ao seu aniversário ativa a crença de desamor, e, quando esta é ativada, impede a pessoa a pensar em outras possibilidades para o não comparecimento do amigo, tais como o amigo ter adoecido, ter tido problemas com o carro, etc. Sendo assim, a pessoa com a crença de desamor entra em sofrimentos, o que altera seu humor na festa, com reações emocionais de tristeza, raiva, passando a agir de forma restrita quanto à interação social e posteriormente ao encontrar com o amigo agindo com indiferença.
Para que o sofrimento seja diminuído e até extinguido, é imprescindível que exista uma tomada de consciência da ativação das crenças, isto é, que a cognição passe por uma avaliação pela própria pessoa a fim de se verificar a veracidade de seu conteúdo, para que haja uma nova percepção da situação e a mudança seja operada. No caso de não haver ações corretivas das crenças centrais disfuncionais, o indivíduo vai cristalizá-las como verdade absoluta e imutável. Quando a cristalização da crença acontece, a pessoa passa a ter baixa autoestima, uma visão ruim de si.
Com as crenças disfuncionais cristalizadas, as pessoas vão criando estratégias compensatórias próprias para lidar com o sofrimento causado pela crença ativada nas relações sociais, ocupacionais, familiares e amorosas. Essas estratégias são desadaptativas, pois trazem desajustes emocionais. Por exemplo, uma pessoa que possui crenças do tipo “sou incompetente”, normalmente, para lidar com essas crenças, desenvolve a estratégia do tipo: “Nem vou tentar fazer esse concurso ou ter um bom trabalho”. Pessoas com crenças do tipo “sou insignificante” possivelmente desenvolverão estratégias do tipo “é melhor eu me isolar, evitar aproximação”.
Questionar o conteúdo do pensamento, a visão que se tem sobre si torna-se fundamental para o alívio do sofrimento e uma vida saudável. Enquanto a mente continuar ligada no automático, acreditando em tudo que passa em seu interior, as pessoas estarão sujeitas a viver oprimidas, com sentimentos de inferioridade e culpa. É preciso utilizar a razão, capacidade única dos seres humanos, para combater a cognição desadaptativa. É preciso pensar que o pensamento que causa dor é fruto de uma cognição disfuncional. É preciso acreditar que nem tudo o que passa na própria mente tem que ser verdadeiro, nem tudo o que se pensa a respeito de si mesmo tem que ser verdadeiro.
É imprescindível questionar, questionar, questionar e posteriormente avaliar o que se pensa, as cognições, as crenças, a visão de si. Tomando consciência dessas cognições, podemos checar as evidências que comprovam se aquele pensamento é real ou irreal, podendo vislumbrar outras possibilidades existentes. A mente humana é extraordinária e precisa ser explorada em sua magnitude, avaliando tudo o que se passa nela. Considerando que as experiências ruins distorcem o processamento de informações, distorcem a cognição humana, as crenças centrais que cada um possui, enfim, a visão que de nos mesmos será distorcida, gerando sofrimento.
A meta da vida sob o olhar de Deus é tornar as lentes dos óculos que as pessoas usam, em especial as que passaram por algum tipo de violência, transparentes, para que os fenômenos possam ser vistos sem distorções, já que essas distorções cognitivas influenciam os pensamentos que, por sua vez, desencadeiam emoções e comportamentos disfuncionais. O caminho está na própria reestruturação da cognição, na identificação das crenças disfuncionais, na identificação dos pensamentos autodestrutivos e no esforço por questionar a visão construída de forma desadaptativa de si próprio. Essa tarefa é por vezes dolorosa, mas necessária no processo resiliente. Com esse novo olhar de si mesmo, todo ser humano terá a chance de formar uma nova história, um lar.
Bibliografia:
BECK, J. (2013) Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática (2a ed.). ( S. Mallmann, Trad.). Porto Alegre: Artmed. (Obra original publicada em ANO.)
KAPLAN, H.I., & SADOCK, B.J. (1990). Compêndio de psiquiatria (2a ed.). Porto Alegre: Artes Médicas.
KNUTSON, J.F. (1995). Psychological characteristics of maltreated children: Putative risk factors and consequences. Annual Review of Psychology, 46, 401-431. FURNISS, T. (1993). Abuso sexual da criança: Uma abordagem multidisciplinar – Manejo, terapia e intervenção legal integrados. Porto Alegre: Artes médicas.

IRANI LAUER LELLIS

Psicóloga com Doutorado em Psicologia pela Universidade Federal do Pará – UFPA. Psicóloga clínica e sócia do NUCCAP – Núcleo Cognitivo Comportamental de Atendimento Psicológico. Atua como terapeuta cognitivo comportamental, atendendo especialmente crianças, adolescentes e casais. É professora da Universidade Federal do Oeste do Pará – UFOPA na graduação e no Programa de Mestrado em Educação.
É casada há 17 anos e mãe de dois filhos, uma adolescente de 14 anos e um menino de 8 anos. Adventista, filha de pastor jubilado, atuante na igreja no Ministério da Mulher e no Ministério da Família.

FONTE: QUEBRANDO O SILÊNCIO

http://quebrandoosilencio.org/quando-a-casa-nao-e-um-lar/

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

'ABUSO SEXUAL NÃO ACONTECE SÓ COM FORÇA FÍSICA’, DIZ PEDAGOGA

Em parceria com a Chilldhood Brasil, conversamos com pedagogas especialistas no assunto para dar luz ao tema da violência sexual infantil, e empoderar não só as famílias, mas também as crianças.



A máxima “meu corpo, minhas regras”, comumente associada às causas feministas, pode e deve ser aplicado ao universo da criança. É só pensar em quantas vezes em um só dia as crianças são submetidas a algum tipo de proximidade corporal com pessoas com quem têm pouca ou nenhuma intimidade. Por isso, dar luz a este assunto é de importância crucial para empoderar as famílias e as próprias crianças contra a violência. Em parceria com a Childhood Brasil, conversamos com especialistas no assunto.
Ainda que de forma inocente e desprovida de qualquer má intenção, é comum que desconhecidos se aproximem das crianças, oferecendo beijos, abraços e carinhos. Porém, é preciso ficar atento ao que esses gestos podem vir a significar.
Um relatório da Childhood sobre violência sexual na infância publicado em setembro de 2016 revela que, entre 2012 e 2015, foram registrados mais de 157 mil casos de violência sexual (que engloba tanto a exploração quanto o abuso) de crianças e adolescentes. Isso significa que, a cada uma hora, há pelo menos 4 casos de uma criança ou adolescente sexualmente violentada no Brasil.

A diferença entre carinho e violência se resume em uma palavra: consentimento

Isso quer dizer que se a criança permitir ser tocada e abraçada, está tudo bem? Nem sempre. Outra questão tem importância crucial aqui: o conhecimento sobre os limites de seu corpo. A criança precisa entender o que é afeto e o que é violência para poder se defender, principalmente para aprender a dizer ‘não’ e saber detectar atitudes abusivas de pessoas próximas.
E como fazer isso? De acordo com os especialistas, a saída está no diálogo aberto. Ou seja, se o sexo ainda é um tabu na sociedade, é preciso tirar essa sombra pelo menos dentro de casa e na escola.
Caroline Arcari, presidente do Instituto CORES, é pedagoga e educadora sexual. Para ela, é preciso quebrar o mito de que educação sexual erotiza a criança antes do tempo: trata-se, ao contrário, de permitir a ela experenciar a infância de forma plena.
“A educação sexual é a forma mais eficaz de prevenção da violência sexual. A Organização Mundial de Saúde já comprovou, ao analisar mais de mil relatórios sobre os efeitos da educação sexual no comportamento de jovens, que quanto mais informação de qualidade sobre sexualidade, mais tarde os adolescentes iniciam a vida sexual. Quanto menos informação, mais precocemente se inicia a vida sexual”, defende.
A pedagoga idealizou, em 2015, o livro “Pipo e Fifi”, que explica às crianças de forma lúdica e com texto acessível as diferenças entre carinho e abuso sexual, e alerta também para o fato de que na maioria das vezes o abuso parte de alguém que a criança conhece e em que ela confia.
“Precisamos superar o mito de que o abuso sexual acontece com o uso da força física, de forma agressiva e pontual, ele pode acontecer mesmo com o consentimento da criança ou do adolescente. Aliás, na maioria das vezes, o consentimento acontece, já que o adulto que comete o abuso o faz por meio da sedução, do convencimento, das trocas, das ameaças e dos toques abusivos disfarçados de afeto. Então, a criança permite (consente) a violência sexual, seja por medo, confusão, imaturidade e até por confiar e/ou amar o agressor (quando este é da família)”.

 “Pipo e Fifi” é uma obra internacionalmente premiada, que ensina as crianças a identificar comportamentos abusivos, além de apontar caminhos para a busca de ajuda em caso de violência sexual. Traduzido para quatro idiomas, com mais de 100 mil cópias distribuídas gratuitamente, o livro está disponível para leitura no site do projeto. Lá, há também outros materiais para download gratuito, para instrumentalizar pais e educadores.

Considerando que a questão nem sempre é clara para quem está no dia a dia com as crianças, é importante não perder de vista que pequenos gestos podem ressignificar o modo como a criança percebe o seu corpo. Caroline aponta algumas alternativas para empoderar os pequenos sobre o abuso:
A possibilidade de escolha

“É importante que as crianças sintam que podem fazer escolhas em coisas simples, dentro de limites estabelecidos pelos pais: roupas, atividades, um passeio, um programa de TV”, sugere.
 Não forçar a criança a abraçar ninguém

“Oferecer alternativas para a criança se relacionar com outras pessoas, sejam parentes ou não, é uma forma de não forçar o contato físico e ainda ensiná-la a ser cortês e simpática”, indica a pedagoga.

Seguir as próprias regras de consentimento

“Os adultos são um modelo de comportamento para as crianças. De nada adianta seguir os passos acima se os próprios adultos não pedem permissão para tocar as crianças, se ignoram a palavra “não” e “pare”, ou se forçam contato físico das crianças com outros adultos. Consentimento se ensina pelo diálogo, mas também pelo exemplo dos adultos”.
O Catraquinha conversou também com a psicóloga Isabel Gervitz, do Toda Criança Pode Aprender, plataforma de conteúdos e referências sobre educação infantil que desenvolveu uma série para empoderar pais e educadores sobre sexualidade infantil, dividida em três partes – clique aqui para ler a primeira.

O limite entre afeto demonstrado de forma física e abuso sexual pode ser muito tênue. Qual o fator determinante para separar uma coisa da outra?

Para a criança, o afeto está muito ligado às sensações físicas, pois ela se relaciona com o mundo de forma mais concreta do que os adultos. A maioria de seus conhecimentos vem do que ela capta através dos sentidos e a abstração é conquistada gradualmente. Justamente por isso, para ela o aspecto físico relacional é importante. Cabe muito mais ao adulto do que à criança identificar o tipo de interação física adequado.
Alguns questionamentos podem ajudar a pensar sobre isso: O contato que está ocorrendo é algo que precisa ser mantido em segredo ou é socialmente aceitável? A criança demonstra reações emocionais ou físicas exageradas frente a essa interação? Há algum tipo de angústia que acompanha o contato físico?

Sabemos que crianças são indivíduos muitas vezes com poucas escolhas, uma vez que são os adultos que definem por elas o que vão comer, vestir, quais lugares vão frequentar. No caso das relações interpessoais, como isso se dá?

O grau de autonomia da criança é variável de acordo com sua idade e com a as características particulares da relação com os adultos responsáveis por ela. No caso das relações interpessoais, isso é semelhante.
É importante estabelecer uma relação de confiança com a criança, permitindo que ela faça suas escolhas e tenha autonomia. Mas também é fundamental acompanhá-la, procurando conhecer as pessoas com quem ela interage e conversando com ela sobre suas atividades e sobre como se relaciona com essas pessoas (o que fazem juntas? Como brincam ou de quê? etc).
Podemos e devemos mediar as relações da criança com as outras pessoas? Como fazer isso sem ferir a individualidade da criança?

Não se pode conceder à criança o mesmo grau de autonomia que seria dado a um adulto, pois ela ainda não tem como arcar com as responsabilidades que isso acarreta e nem é esperado que o faça.
Também não tem discernimento para decidir até que ponto sua relação com outras pessoas é saudável, quais os limites que precisa ter etc. A infância é um período de experimentação e de exploração e, para que isso ocorra, é preciso que haja algum adulto que zele pela segurança da criança.

Considerando que o abuso na maior parte das vezes parte de pessoas próximas da criança e da família, qual o melhor caminho para empoderar a criança em relação ao contato físico sem consentimento?

É possível empoderar a criança, mas há limites consideráveis nesse empoderamento. De forma geral, quem tem a capacidade de prevenir ou mesmo interromper uma situação de abuso é o adulto responsável pela criança.
De qualquer maneira, é possível conversar com a criança sobre a importância dos cuidados com seu próprio corpo, indicando que ela pode recusar alguns tipos de carinho ou contato que não tenha vontade de ter e mostrando que algumas partes do corpo são muito íntimas e não devem ser tocadas por qualquer pessoa. Esse diálogo cabe quando o adulto possui uma relação de vínculo e confiança com a criança e precisa ser delicado e adequado à linguagem infantil, caso contrário não fará sentido para ela, podendo assustá-la e angustiá-la.
Outra possibilidade é explicar à criança que nem sempre os outros sabem que a estão machucando ou tendo um tipo de contato físico que ela não gosta e que nessas ocasiões é importante que ela diga algo, colocando seu limite ou pedindo ajuda.

A questão do abuso sexual faz parte de um guarda-chuva de assuntos ainda tratados como tabus em muitos âmbitos, como o sexo e a relação com o corpo. Como naturalizar o assunto, tanto na escola quanto em casa?

O cuidado com o próprio corpo, bem como a auto-observação sobre as reações físicas e emocionais que o contato com outras pessoas gera são extremamente importantes. Na verdade, o que é mais efetivo para que a criança seja capaz de cuidar de si mesma é um convívio diário com essa questão. Isso é oportunizado em muitos momentos do cotidiano, como em situações de higiene, nas relações com outras crianças e com adultos, ao relaxar na hora de dormir, ao realizar atividades físicas como correr, nadar, dançar, pular.
Vivenciar diversas sensações físicas e tentar percebê-las e descrevê-las pode promover uma intimidade maior da criança com seu próprio corpo. Ao se expressar corporalmente, ela irá perceber gradualmente seus limites, os contatos que gosta e os que não gosta, tornando-se muito mais apta a reparar quando algo não vai bem. Poder falar sobre as reações e sensações corporais com os adultos de referência também é uma forma de manter o canal de diálogo aberto, permitindo que ela peça ajuda quando necessário.

CHILDHOOD BRASIL E CATRAQUINHA PELO FIM DA VIOLÊNCIA SEXUAL


Criada em 1999, a Childhood Brasil é uma organização social brasileira que trabalha para influenciar a agenda de proteção da infância e adolescência no país. A organização tem o papel de garantir que os assuntos relacionados ao abuso e a exploração sexual sejam pauta de políticas públicas e privadas oferecendo informação, soluções e estratégias para os diferentes setores da sociedade. Por entender que este é um tema fundamental para o empoderamento das famílias, o Catraquinha se juntou à organização para luz a essa discussão. 

FONTE: CATRAQUINHA

https://catraquinha.catracalivre.com.br/geral/defender/indicacao/abuso-sexual-nao-acontece-so-com-forca-fisica-diz-pedagoga/

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

MENORES DE 15 ANOS SÃO FORÇADAS A SE CASAR A CADA 7 SEGUNDOS

Além de alertar para o casamento infantil, a organização fez um ranking mostrando quais são os melhores e os piores países para uma menina viver


Quem vive longe dessa realidade costuma pensar que o casamento infantil não é mais uma prática comum hoje em dia. Mas os dados divulgados esse mês pela instituição britânica Save the Children apontam o contrário. A cada sete segundos uma menina menor de 15 anos é forçada a se casar ao redor do mundo.
Há pouco mais de três anos, em setembro de 2013, o mundo se chocou com a morte de Rawan, uma menina de oito anos que foi forçada a casar com um homem de 40.
A criança faleceu logo após a lua de mel, pois teve ferimentos profundos no útero, recorrentes de estupro. Ela morava no Iêmen e foi vendida pelo padrasto, por cerca de 6 mil dólares.
Mas o caso de Rawan é exceção à regra. Não pela violência sofrida, mas pelo fato de o caso ter sido noticiado ao redor do mundo. Casamentos infantis – seguidos de estupro e todo tipo de violência – estão longe de ser incomuns, mas a gente prefere fechar os olhos para isso.
Junto com o Iêmen, países como Afeganistão, Índia e Somália estão no topo da lista entre os locais onde a prática é assustadoramente corriqueira. Na época em que Rawan morreu, um levantamento realizado pelo Human Rights Watchrevelou que cerca de 52% das meninas se casam antes dos 18 anos no Iêmen, e 14% antes dos 15.

Mas não se engane, pois o casamento precoce também é uma realidade no Brasil, como retratou a revista Claudia numa reportagem realizada no início desse ano.
Segundo a matéria: “O Brasil ocupa o quarto lugar no mundo em número absoluto de crianças casadas. As esposas de 10 a 14 anos são 65 709; delas, 2,6 mil firmaram compromisso em cartório e/ou igreja.”
Voltando ao relatório da Save the Children, a instituição destaca o fato de que o matrimônio infantil contribui não apenas para a violência sexual e doméstica, mas também para os índices de menor taxa de escolaridade entre mulheres.
A gestação precoce também aumenta o número de mortandade entre as meninas, pois grande parte delas engravida antes de ter o corpo totalmente formado e morre por causa disso.
Além de alertar para o casamento infantil, a organização fez um ranking mostrando quais são os melhores e os piores países para uma menina viver. Mais de 140 países foram avaliados com base em dados como: índices de matrimônio precoce, gravidez na adolescência, mortalidade materna, mulheres com ensino fundamental completo e representatividade feminina na política. O Brasil figura no 102º lugar da lista, ficando numa posição pior do que países como Paquistão e Iraque.

FONTE: Exame

http://exame.abril.com.br/mundo/menores-de-15-anos-sao-forcadas-a-se-casar-a-cada-7-segundos/ 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Os tristes números do casamento infantil no mundo


São Paulo – A Unicef, o braço da Organização das Nações Unidas que monitora a situação da infância no mundo, divulgou recentemente um relatório impactante sobre o casamento infantil e que trouxe à tona previsões desastrosas, especialmente para as meninas na África
Até 2050, mostrou o estudo, se nada for feito para mudar esse panorama, o número de mulheres adultas que se casaram ainda na infância atingirá a marca de 310 milhões.
De acordo com a entidade, a lentidão na redução da taxa deste tipo de união associada ao crescimento demográfico acelerado no continente são os fatores responsáveis por esse número assustador. 
A tarefa de redução desse fenômeno promete não ser nada fácil. De acordo com um estudo conduzido pela Unicef em 2005 e que investigou as origens desse problema, o casamento infantil é visto como culturalmente aceito em muitas tribos do continente. A pobreza é outro fator determinante desse retrato, já que muitas famílias acabam enxergando nos casamentos uma forma de renda. 
Os efeitos dessa prática são nefastos. Ainda nessa pesquisa, a Unicef constatou que a maioria das esposas casadas na infância ou adolescência estão mais expostas à violência doméstica, a maioria delas não conhece métodos contraceptivos e muitas sequer sabem como se proteger de doenças e estão particularmente vulneráveis a serem infectadas pelo HIV. 
O panorama desse problema é sombrio. No infográfico abaixo, EXAME.com mostra alguns dos números que comprovam a gravidade dos casamentos infantis. 
FONTE: EXAME
http://exame.abril.com.br/mundo/noticias/os-tristes-numeros-do-casamento-infantil-no-mundo