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sábado, 23 de julho de 2011

EX-MORADORA DE FAVELA, FLORDELIS PERSEVEROU ATÉ CONSEGUIR ADOTAR 46 CRIANÇAS ABANDONADAS

"Nenhuma mãe deveria abrir mão de um filho, pois gerar uma criança é a maior dádiva dada por Deus a uma mulher"


Flordelis, de 50 anos, é uma ex-moradora da favela do Jacarezinho – uma comunidade carente da capital fluminense –, que enfrentou inúmeros obstáculos para adotar 46 crianças e adolescentes e, assim, poder criá-los junto com seus quatro filhos biológicos. Ela chegou, inclusive, a ser perseguida pela Justiça, tendo seu nome e sua foto estampados em jornais do Rio de Janeiro, sob a acusação de sequestro.
Tudo começou quando ela passou a realizar um trabalho evangelístico nas madrugadas de sextas-feiras, na comunidade onde morava. Ela saía de casa, por volta da meia-noite, na tentativa de resgatar jovens envolvidos com o tráfico de drogas. Até que em uma ocasião ela decidiu abrigar um grupo de meninos e meninas sobreviventes de uma chacina. A partir daí, enfrentou a pobreza, a violência e o preconceito com o objetivo de oferecer a esses filhos do coração uma vida nova e o amor verdadeiro de uma mãe.
Por ter características semelhantes às de um roteiro cinematográfico, sua história foi adaptada para o cinema e também virou livro. Em entrevista ao Portal Arca Universal, Flordelis conta detalhes de sua luta e das perseguições que sofreu até conseguir adotar e cuidar dos seus filhos.

O que motivou você a adotar tantas crianças?
Como fui criada na favela, eu sempre vi meninos e meninas que conviviam comigo morrerem, por se envolverem com o tráfico de drogas. Então, quando eu me tornei adulta resolvi fazer alguma coisa para evitar esse tipo de situação, tirando crianças e adolescentes desse submundo. Desde os 17 anos eu fazia trabalhos evangelísticos, levando mensagens de esperança para as pessoas. Mas foi aos 28 que eu decidi me aprofundar nessa missão.
Nessa época, eu já tinha três filhos e lembro que eu saía sozinha todas as madrugadas de sexta-feira, que era o dia de “baile funk” na comunidade. Entrava no meio dos jovens, me misturando e realizando o meu trabalho. 

O que você falava para essas crianças e jovens viciados?
Eu sentava perto deles, procurando puxar assunto. Por meio de palavras, eu tentava mostrar que existia um caminho melhor, diferente, no qual eles poderiam realizar os seus sonhos. Procurava motivá-los a lutar, trabalhar e estudar para que isso acontecesse. 

Como eles recebiam a sua mensagem?
No início, havia muita resistência ao que eu falava, pois essas crianças e jovens que vão para o mundo das drogas costumam optar por esse caminho por terem sido vítimas de violência física, sexual ou psicológica. Muitas vezes, esses abusos ocorriam dentro da própria casa deles. Dessa forma, eles deixavam de acreditar em uma alternativa que não fosse a droga. Mesmo assim, essa falta de receptividade inicial não me desanimava, pois eu aprendi desde cedo com meu pai que a perseverança produz resultado.
Em que momento você decidiu fazer mais, abrigando esses meninos dentro da sua própria casa?
Eu não me imaginava trazendo essas crianças para morar comigo. Mas eu descobri que a maioria deles se viciava em jogos eletrônicos e que disso surgiam as ofertas de trabalho com o tráfico. É esse vício que os levava a roubar, muitas vezes. Então, eu comprei um vídeo game, coloquei em casa, e passei a convidar os meninos para jogarem de graça. Cinco desses menores acabaram ficando, dormindo algumas noites, e eu fui cuidando deles.
De que forma seus outros filhos adotivos chegaram até você?
 Eu fiquei conhecida na comunidade por fazer esse tipo de trabalho. Até que em uma ocasião eu fui levada até a Central do Brasil – famoso terminal de trens, no Centro do Rio de Janeiro – para resgatar uma menina que havia fugido da favela por conta de drogas. Foi o meu primeiro contato com moradores de ruas. Naquela ocasião, eu vi uma mãe alimentando um casal de gêmeos com leite condensado e isso me chocou bastante. Também encontrei outra mulher que tinha acabado de jogar a filha no lixo, com 15 dias de nascida. Eu fui até o local, levada pela própria mãe, peguei essa criança e levei para minha casa.
Depois disso, um carro passou próximo do calçadão do terminal e, de dentro dele, alguém deu vários tiros em direção às crianças que estavam lá. A mãe da recém nascida que eu havia acolhido, e que sabia o meu endereço, levou todos os sobreviventes dessa chacina para minha casa. De uma só vez, eu recebi 37 crianças, entre elas, 14 bebês, e resolvi dar abrigo a todos eles. Não foi algo que eu procurei, mas eu abracei essa causa.

Você não teve medo de sofrer represálias por conta dessa atitude?
 Eu não fazia ideia de quem fez aquilo na Central Brasil contra aquelas crianças. Algum tempo depois, minha casa foi invadida, provavelmente pelos autores daquela chacina, que vieram encapuzados e com intenção de me matar. Eles queriam saber do meu paradeiro, mas, graças a Deus, eu já não estava mais morando lá.

Que tipo de problemas enfrentou com a Justiça por ter dado abrigo a esses menores?
Quase dez meses após esse episódio, por conta de uma matéria feita pelo sociólogo Betinho de Souza, que pedia ajuda para mim, a Vara de Infância e Juventude do Rio de Janeiro tomou conhecimento da minha situação. O juiz, então, decidiu recolher todas as crianças e adolescentes e colocá-las em abrigos para menores. Eu não aceitei aquilo, pois já estava muito apegada a eles, considerando-os como filhos. Então, fugi com todos eles.

Como conseguiu se esconder com tantas crianças?
Nós fomos para um bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, chamado Irajá, e ficamos lá por quatro meses. Até que o juizado nos achou, em um dia que eu não estava em casa. Enquanto os agentes da Justiça batiam na porta da frente, meus filhos fugiram pela garagem e ficaram em uma praça me esperando. Como não tínhamos onde ficar, dormimos na rua.
Depois disso, fomos acolhidos pela Associação de Moradores de Parada de Lucas (na zona norte carioca). Ficamos quase cinco meses escondidos lá, até que o meu retrato e o meu nome foram parar em todos os jornais do Rio de Janeiro. Eu estava sendo procurada sob a acusação de sequestro de crianças.
Como reagiu ao ser tratada como sequestradora pela Justiça e pela imprensa?
Quando isso aconteceu, eu fui literalmente abandonada por todo mundo. Nessa hora, dois verdadeiros irmãos surgiram em nossas vidas, Carlos e Pedro Werneck. Eles passaram a me ajudar toda semana, depositando recursos em uma conta bancária para que eu pudesse comprar comida. Também pediram para que eu procurasse uma casa onde eu pudesse morar com os meus filhos, em nome da família deles. Eles ainda me acompanharam até o Juizado de Menores na tentativa de resolver a minha situação, se responsabilizando por todos nós, até que tudo fosse solucionado.

Para ficar com seus filhos, o que a Justiça exigiu de você?
Para que eu pudesse ter a guarda provisória das crianças, como pessoa jurídica, eu tive que criar uma entidade, o Lar Família Flordelis. Passei a receber ajuda de órgãos do Governo, mas, depois dois anos e meio, decidi abrir mão disso para adotar todos os meus filhos legalmente. Se eu continuasse cuidando deles como se fosse um abrigo, eles não poderiam continuar comigo depois que se tornassem adultos.
Você já conseguiu adotar todos os seus filhos?
Como o processo de adoção é algo demorado aqui no Brasil, alguns deles ainda não foram finalizados. Já tenho filhos maiores de idade que tiveram que entrar com ações na Vara Cível para poderem ter o meu nome como mãe em seus documentos, devido à burocracia da Justiça.
Em sua opinião, o que leva uma mulher a abrir mão de um filho?
Com o tempo, eu percebi que isso ocorre com a mulher que deixa de gerar o filho no coração, gerando-o apenas no ventre. Nenhuma mãe deveria abrir mão de um filho, pois gerar uma criança é a maior dádiva dada por Deus a uma mulher. Quando o filho é concebido no coração, a mãe faz faxina, lava roupa para fora, pede ajuda a quem for preciso, mas não o abandona nunca. 
Além de cuidar dos seus filhos, você criou um instituto que ajuda outras crianças carentes. Que tipo de trabalho é desenvolvido pela entidade?
O Lar Flordelis atende mais de 200 crianças. No local, elas estudam informática, artesanato, teoria musical e têm ainda reforço escolar. Os adolescentes também participam de oficinas de áudio e vídeo. Devido à repercussão da minha história na imprensa, hoje eu sou bastante procurada por meninos e meninas viciados, principalmente no crack. Muitos me pedem ajuda e, por conta disso, estou alugando um espaço onde vou abrir um centro de recuperação para menores com dependência química, em São Gonçalo – região metropolitana do Rio de Janeiro.
Como estão os seus filhos hoje em dia?
Uma delas, a Vânia, que é a bebê que eu peguei no lixo na Central do Brasil, é diretora do Instituto Flordelis e coordena várias atividades no local. Ela se orgulha desse trabalho, pois fala que se vê nas crianças que nós atendemos. Se não tivesse tido a oportunidade de encontrar uma mãe, ela acredita que estaria precisando do mesmo auxílio hoje. Meus outros filhos também ajudam na administração do local. Apesar das dificuldades, todos conseguiram estudar, fizerem cursos e alguns até já têm profissão. Um deles é advogado. Sempre procurei mostrar para eles que isso era muito importante.
Você também escreveu sua própria biografia. Acredita que pode ser um exemplo de superação para outras pessoas?
No livro, eu procuro mostrar para as pessoas que é possível conquistar aquilo que a gente quer. Relato as perdas e as injustiças que eu sofri ao longo desses anos, como também a minha perseverança em meio a tudo isso. Eu me considero uma prova de que é possível reescrever a própria história e ter uma vida diferente.
Dessa forma, quero incentivar as pessoas a lutar pelos seus objetivos. Quem tem um sonho deve batalhar por ele, não importa a situação, sem olhar para as dificuldades, mas tirando delas uma oportunidade para ter uma vida melhor.
O que a fez superar tantos obstáculos?
Eu consegui porque em meio a tantas dificuldades sempre existiram pessoas que confiaram em mim e que estenderam a mão para me ajudar. Também acredito que, desde que nascemos, fomos capacitados por Deus para conquistarmos aquilo que queremos. Então, não devemos nos limitar nunca.

Um comentário:

  1. Parabéns por essa bela ação!!! Que esse gesto inspire cada um de nós!!

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